Resenha: Inteligente, "Corrente do Mal" é um bom exemplo de filme de terror • MAZE // MTV Brasil
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Resenha: Inteligente, “Corrente do Mal” é um bom exemplo de filme de terror

Luiz Henrique Oliveira3715 views

Do meio dos anos 80 para cá, a explosão dos filmes de terror nos cinemas do mundo inteiro tem causado bons e maus efeitos tanto nos espectadores quanto nos estúdios. Por um lado, se é possivel dizer que Wes Craven popularizou o gênero com seu A Hora do Pesadelo (e o ressuscitou uns anos depois com a franquia Pânico), também criou uma espécie de monstro: o ~filme de terror para adolescentes~. Produtores, roteiristas e diretores passaram a criar histórias em ritmo industrial para satisfazer o público – que passou a exigir cada vez mais a cada nova história apresentada.  Com o tempo, o mercado acabou saturado com longas de qualidade, digamos, duvidosa. Ano após ano, uma nova safra de variações sobre o mesmo tema surge por aí, fazendo mais ou menos sucesso dependendo do interesse dos envolvidos no projeto.

Pôster de "Corrente do Mal"
Pôster de “Corrente do Mal”

Por causa dessas coisas que quando algo tipo Corrente do Mal estreia, é natural ficar um pouco desconfiado. Havia o hype da internet, com muita gente dizendo maravilhas sobre a história, sobre o quanto era excelente e o enchendo de adjetivos. O título também não ajuda: já existem outros com nomes semelhantes e que não são de boas lembranças. Porém, ao terminar, foi bom perceber que foi uma surpresa bastante positiva.

O plot é bastante simples: em Detroit, depois de uma transa casual, uma garota é avisada pelo seu parceiro que acaba de ser “infectada” por ele com uma espécie de entidade maligna, que a perseguirá até matá-la. Essa espécie de demônio, que pode adquirir qualquer forma e somente ela pode ver, passa a persegui-la e vigia-la a todo momento. E enquanto duvida de sua sanidade, ela precisa decidir se repassa a maldição a outra pessoa ou aceita o seu destino.

O que pode soar como uma história absurda, na verdade mostra-se um terror competente. Méritos do roteirista/diretor David Robert Mitchell, que pega referências dos melhores filmes do gênero nos anos 70 e 80 e remonta aqui de forma quase claustrofóbica, tensa, sem o truque barato de dar sustos fáceis em quem está assistindo. Mitchell entende que o verdadeiro suspense é construido aos poucos, atmosférico, sem cortes rápidos e câmera tremendo. Também inteligente na construção do roteiro, por permitir várias interpretações para as situações apresentadas (doenças sexualmente transmissiveis, a origem do mal, isolamento, solidão e principalmente sobre a morte como fato inevitável), “Corrente do Mal” é um achado, o melhor do tipo em muitos anos.

Mas – e sempre há um mas – há um ponto fraco, que atende por um nome: Jay, a protagonista interpretada por Maika Monroe. A atriz faz o que pode com uma personagem que toma atitudes que, pensando bem, são… toscas. Um desafio à inteligencia de quem assiste. Pelo bem da trama a gente acaba relevando (e não revelando aqui no texto por motivos de spoilers), mas depois que o filme acaba ficamos pensando se uma mocinha de Malhação não teria se saído melhor nas situações em Jay se envolve.

Tendo um elenco coadjuvante sem grande peso mas que não compromete o resultado final, Corrente do Mal acaba sendo uma experiência recompensadora por se firmar em sua proposta de fazer suspense à moda antiga, sem precisar encher todas as cenas com sangue, tripas e sustos para fazer você saltar da cadeira sem necessidade, e por se tratar de algo que traz um respiro, uma novidade nessa área do cinema, que há muito sofre pela mesmice.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.