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RESENHA | “O Rei do Show” diverte, mas não é um musical inesquecível

Luiz Henrique Oliveira3013 views

Filmes musicais são complicados. Tanto em se produzir quanto em se consumir: ao mesmo tempo em que se exige esforço dos realizadores e atores na hora de levar às telas uma história com esse pano de fundo, também é um fato que nem todo longa assim consegue cativar o público da maneira desejada. Clássicos como “Cantando na Chuva” ou “Chicago” são exemplos de filmes que deram muito certo; “Mamma Mia!” ou “Across the Universe” são exemplos de riscos tomados pelos produtores e que acabaram se tornando um êxito. Recentemente, tivemos “La La Land” trazendo luz ao gênero novamente, com as suas 14 indicações e 6 vitórias no Oscar deste ano. Na esteira dessa nova onda, estreia “O Rei do Show“, que acaba por entrar naquela lista de produções que são visualmente caprichadas, mas não empolgam — e portanto, não funcionam tão bem quanto poderiam.

Menos é mais

A história de P.T. Barnum, interpretado por Hugh Jackman, tem tudo para ser fascinante: um homem com origens humildes que se casa com uma mulher rica por quem é apaixonado desde criança. Encontrando-se desempregado, tem uma ideia que acaba praticamente criando o conceito de “show-business” — que na época ainda não existia. Os trailer da produção indicavam uma direção de arte muito bem executada, atuações impecáveis e músicas inesquecíveis.

No caso, apenas o que diz respeito a direção de arte está 100% correto. Os cenários produzidos para “O Rei do Show” são deslumbrantes, uma recriação sensacional do século XIX que juntamente ao figurino (sob responsabilidade de Ellen Mirojnick) forma o que há de melhor no longa. Entretanto, quando os atores abrem a boca encontra-se o maior problema, e nem diz respeito a qualidade de suas vozes na execução das músicas.

Quase todo mundo parece estar acima do tom de atuação em “O Rei do Show”. Causa até uma sensação estranha, de que estão forçando a barra para dar vida aos personagens que rodeiam P.T. Barnum: o crítico insensível de teatro, sua trupe de “pessoas diferentes” — a mulher-barbada, o irlandês gigante, os trapezistas, etc — e até sua família, composta pelas duas filhas, a esposa e os sogros “malvados”. É um paradoxo: ao mesmo tempo em que a direção de câmera do realizador Michael Gracey é elegante e não compromete o trabalho, sua direção de atores é bem falha.

La La Logan

Pôster  - "O Rei do Show" (2017)O único que dá conta do recado é Hugh Jackman. O homem, que já tem uma vasta experiência com musicais e canta muito bem, dá o tom certo para o seu P.T. Barnum, um sujeito que veio do nada e criou um império de entretenimento dando voz aos marginalizados e considerados “esquisitos” à época (na vida real, infelizmente, não foi bem assim: Barnum é conhecido nos Estados Unidos como um charlatão inventor das mais famosas fraudes já conhecidas, como A Sereia de Fiji, que nada mais era do que uma montagem grosseira de um esqueleto de peixe com a cabeça de um macaco, e que até hoje tem defensores de sua veracidade). Jackman esbanja empatia e carisma na pele do empresário de bom coração.

Mas quando se trata de canções pouca coisa se salva, por mais talento que Hugh Jackman e companhia possuam. O carro-chefe de um musical, obviamente, são as músicas — e em “O Rei do Show” nenhuma chega a realmente empolgar. São amontoados de clichês que podem ser vistos em dezenas de outros filmes superiores a este, mas com o charme e a voz de gente como Zac Efron ou Zendaya. Até Michelle Williams não faz feio, entretanto as coisas que cantam se revelam um problema recorrente: não há, como havia em “La La Land” logo nos primeiros cinco minutos por exemplo, músicas que levantem o público e fiquem marcadas na memória, com exceção, talvez, de “This Is Me”.

Um desperdício de potencial

Com tudo isso considerado, “O Rei do Show” é um filme que fica na média. Não é excelente nem péssimo, só não é tudo aquilo que poderia ter sido se houvesse mais capricho nas canções, que prometiam demais nos trailers, mas desapontaram na hora do longa em si. Os responsáveis por boa parte das canções de “La La Land”, Benj Pasek e Justin Paul, criaram a trilha sonora deste filme e se revelaram não muito inspirados, o que é realmente uma pena.

Ainda assim, é possível assistir ao filme pelo carisma magnético de Hugh Jackman os talentos individuais de Michelle Williams e, acredite, Zac Efron. Porém, é o tipo de longa que se assiste uma vez e curte, mas não passa disso: não convida para uma revisitada depois de um tempo, e nem fica marcado na mente. É uma diversão ligeira e bem apresentada, muito bem coreografada e dirigida; o que lhe falta, então, é a qualidade dos clássicos e a coragem de ousar como outros exemplares contemporâneos do gênero.

Ouça a trilha sonora de “O Rei do Show” no Spotify:

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.