RESENHA | Noel Gallagher entrega o álbum mais pop psicodélico de sua carreira • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | Noel Gallagher entrega o álbum mais pop psicodélico de sua carreira

Livia Figueiredo1 comment427 views

Não é nenhuma novidade que os artistas estão se reinventando a cada dia que passa. Nessa sexta (24), Noel Gallagher, o polêmico ex-Oasis, entrega o disco que mais desvia de tudo que já foi feito em sua carreira. Em “Who Built the Moon”, terceiro álbum do seu projeto solo, nada é aleatório. O próprio nome foi escolhido com um objetivo: fazer alusão a um livro que traz a hipótese de que a lua foi construída por alguém. Nada no disco é por acaso e dessa vez o músico traz à tona um pouca da magia e do poder da narrativa. Todos seus elementos estão em perfeita sintonia, desde o título do disco, que carrega um conceito, até a concretização de um desejo de longa data.

Quem acompanha a sua carreira, ou melhor, de sua banda Noel Gallagher’s High Flying Birds, percebe que o álbum auto-intitulado da banda inglesa se distancia muito do material que está sendo apresentando ao público hoje. “Who Built the Moon” tem forte influência eletrônica e psicodélica, algo que o Noel sonhava em fazer, mas era constantemente barrado pelos outros membros do Oasis.

Ainda acho estranho quem se assusta com essa mudança de sonoridade do músico. Se for parar e refletir um pouquinho, ela não é tão drástica assim. Os sinais já estavam sendo anunciados. Quer um exemplo? “Falling Down” e “The Turning” do “Dig Out Your Soul”, álbum do Oasis lançado em 2008. Outro clássico, a faixa “AKA…What a life”, do seu álbum homônimo, nos revela que essa mudança de estilo já estava sendo estrategicamente preparada para sair do papel.

E agora, finalmente, Noel tomou coragem para arriscar, entregando o álbum mais fora da curva de sua carreira, que conta com produção de David Holmes, o que explica muito a levada do disco. O produtor norte-irlandês é conhecido pela música eletrônica e foi o grande responsável, segundo o próprio Noel, pelo processo de composição do álbum.

Confira a resenha faixa-à-faixa do álbum:

Fort Knox

É na primeira canção do álbum, a “Fort Knox”, que Noel mais se reinventa. Talvez por conta disso, essa tenha sido a faixa que ele pensou duas vezes antes de colocar no álbum. Para começo de conversa, 90% da música é instrumental, algo nunca antes feito pelo britânico. Repleta de backing vocals e sons experimentais, “Fort Knox” traz uma atmosfera sintética e ao mesmo tempo pesada, o baixo e a bateria ajudam nessa marcação sonora. E assim, o resultado é nada mais nada menos que um compilado de distorções e efeitos sonoros inusitados.

Holy Mountain

Em “Holy Mountain”, primeiro single anunciado do seu novo trabalho e segunda faixa do disco, o britânico flerta com os anos 50 e apresenta um som que se assemelha muito com o Chuck Berry. Diferente dos seus últimos singles, dessa vez, ele se recorre aos backing vocals, que por sinal, podem ser considerados ponto forte do álbum. “Holy Mountain” ganhou um clipe que mostra bem o conceito que a música tenta passar. O vídeo traz sobreposições de imagens coloridas num aspecto bem retrô. Noel até arrisca numa dancinha. Vale conferir.

Keep On Reaching

O álbum segue com “Keep on Reaching” e mais uma vez quem rouba a cena não são os riffs de guitarra, mas sim, a bateria e o baixo. Um aspecto que vale destacar é o constante uso de instrumentos de sopro ao longo da música. O backing vocal é outro elemento que reaparece e ajuda construir uma atmosfera que transita entre o passado, sem deixar de fora o aspecto futurístico.

Um ponto fraco da música são as sequências de acorde. Verdade seja dita: a guitarra ficou totalmente em segundo plano aqui. Seja intencional ou não, a faixa fica cansativa com refrões que se repetem ao longo da música, trazendo a sensação de que “Keep on Reaching” poderia ser mais ousada.

It’s a Beautiful World

É engraçado notar que os elementos que estão faltando em “Keep on Reaching” são complementados em “It’s a Beautiful World”. A música aposta num pace propositalmente lento e em distorções vocais. A letra é outro ponto forte, assim como a linha do baixo. A faixa seduz nesse sentido, parece que tudo foi cuidadosamente pensado. Todos os instrumentos presentes na música se comunicam. E, nos seus segundos finais, a cereja do bolo: versos em francês são cantados numa espécie de megafone. Ponto para Noel pela criatividade.

She Taught Me How to Fly

Já “She Taught Me How to Fly” chama a atenção pela sua mistura dos anos 50 com a modernidade. Talvez a faixa poderia ser incluída no álbum “Dig Out Your Soul” devido à sua estética e sequência harmônica.

Be Careful What You Wish For

O álbum prossegue e traz com ele algumas surpresas como “Be Careful What You Wish For”, que possui uma sonoridade, no mínimo, curiosa. Essa faixa, em particular, traz a influência pop cósmica que Noel quis tanto proporcionar ao seu trabalho, além de lembrar muito o som dos Beatles The Smiths. Aliás, o guitarrista Johnny Marr, ex Smiths, colabora para o álbum, mas vamos falar dele mais para frente. O disco também conta com a participação de Paul Weller, conhecido pelo seu trabalho em bandas de sucesso como The Jam e The Style.

Black & White Sunshine

Mas é em “Black & White Sunshine” que Noel mais flerta com seu trabalho antigo, os riffs de guitarra colaboram a matar a saudade de fãs nostálgicos. A própria forma que o músico canta e sua projeção de voz lembram a vibe de algumas canções do “Chasing Yesterday”, seu segundo álbum de estúdio.

Wednesday part 1 e part 2

Por falar em referências musicias, fãs do Radiohead também podem se sentir representados nesse disco. Nos interludes “Wednesday part” 1 e “Wednesday part 2”, Noel brinca com o instrumental de forma muito semelhante ao que a banda inglesa costuma fazer. E funcionou.

If Love is The Law

O primeiro interlude emenda com uma das melhores músicas do álbum. “If Love is The Law” traz a gaita de Johnny Marr como carro-chefe e, junto dela, desperta uma sensação de frescor. A música é um excelente contraponto para tudo que Noel apresentou em “Who Built The Moon”.

Who Built The Moon?

“Who Built The Moon”é a cara do álbum e pode ser vista como uma tentativa de Noel explorar todas as suas viagens sonoras. É uma música que nenhum instrumental se destaca. A faixa-título do álbum é densa e não tinha como ser diferente. A sensação é de que toda a intensidade presente está no mesmo plano, mas de forma confusa e mal estruturada.

Dead In The Water

O álbum fecha com a belíssima faixa bônus “Dead in The Water”, que lembra muito “If I Had a Gun” do seu álbum auto-intitulado. A faixa, que ganha registro ao vivo, se destaca por ser a única do álbum que tem como base o instrumental totalmente acústico. Sem qualquer distorção sonora, a música se divide em bons momentos de violão e piano.

***

“Who Built the Moon?” é, sem sombra de dúvidas, o álbum mais experimental de Noel Gallagher. E, como qualquer mudança, pode agradar ou não. Mas você acha mesmo que ele se importa? Custe o que custar todos sabemos que Noel vai continuar fazendo o que bem entende. Afinal, como ele mesmo disse, esse álbum é uma declaração absoluta de como ele se sente no momento, de suas preferências musicais. E tá tudo bem. Nada impede que daqui a alguns anos suas intenções com o álbum sejam totalmente diferentes. O importante é não estagnar no passado, não é mesmo?

Ouça o álbum “Who Built The Moon?” no Spotify:

Livia Figueiredo

Jornalista, contadora de histórias e uma entusiasta da música. Não necessariamente nessa ordem.

  • Jonathan Montes

    Gostei muito da sua resenha, Livia!
    Na minha opinião esse é o melhor trabalho ex-oasis do Noel (e melhor que todos os discos do beady eye/as you were). Noel mostrou que pode sim se reinventar e criar ótimas músicas fora da zona de conforto. The man who built the moon é uma das melhores músicas da carreira dele! O velho é tão foda que, pra mostrar que mesmo inovando ainda sabe escrever músicas à lá oasis, mandou Dead in the Water, que é linda e caberia fácil no The Masterplan.
    Entre o Oasis voltar e ficar no modo automático e os dois irmãos lançarem bons discos, fico com a segunda opção!
    Rock on!