Resenha | "Nise: O Coração da Loucura" • MAZE // MTV Brasil
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Resenha | “Nise: O Coração da Loucura”

Lucas Perpétuo27415 views

Atualmente, um dos assuntos mais digeridos e fomentados em discussões entre amigos e grupos é a política de minorias. Toda elas, em sua essência, tem como visão a inclusão de grupos pequenos e de certa forma excluídos da sociedade. Nise – O Coração Da Loucura se aprofunda na temática, buscando humanizar cidadãos que nunca possuíram uma forma de inclusão, respeito e dignidade. Nas produções cinematográficas que retratam o tema, poucas são aquelas que fogem da temática de terror e suspense, sempre retratando o hospício como um lugar ácido, no qual você jamais desejaria estar.

No início da trama, Nise (Glória Pires) retorna ao ambiente do trabalho após um período de afastamento, ela então se depara com terapias desumanas como lobotomia e eletrochoque. Incomodada com a forma que são tratados os pacientes ela resolve assumir  o setor de terapia ocupacional, inteiramente desmoralizado pelos funcionários do hospital.

nise-o-coracao-da-loucura-maze-blogO filme, dirigido por Roberto Berliner (Julio Sumiu), tem como principal ponto levar o espectador a analisar, junto da psiquiatra, a índole de cada paciente, tornando o público crítico das escolhas feitas por Nise e percebendo junto dela a humanidade presente em cada indivíduo. Com sua equipe ela opta pela arte como maneira de evasão para os pacientes, trazendo a pintura, escultura e desenho para dentro do hospício. A obra vai além de uma biografia de Nise, trazendo ao público a realidade, história e as obras de cada artista que surgiu do projeto desenvolvido, dedicando o tempo do filme a representar de maneira delicada a trajetória de cada individuo, mais uma vez tornando-os humanos tal qual os sãos.

A fotografia do filme dialoga a todo instante com a trilha sonora, trazendo tons suaves, simples e claros. A abertura das imagens é sempre pontuada com a singularidade que cada artista possui em suas técnicas de pintar, fazendo o publico perceber que cada um dos pacientes é tão único que seria possível um longa para retratar a vida de cada um deles. Nise De Silveira existiu, assim como seus pacientes, assim como as obras de arte apresentadas no filme. Os pacientes ocultos, por trás da tela, existiram e ainda existem, as terapias como lobotomia já se foram, porém o tratamento aos pacientes continuam longe do que cada ser humano merece. O Museu da Imagem e do Inconsciente do Rio de Janeiro foi criado no hospício no qual a trama se passa e é aberto ao público diariamente, uma extensão necessária para o pós filme.

Tratar de loucura no Brasil é um desafio, além disso uma necessidade. Em um país que sofreu o chamado Holocausto Brasileiro, onde sessenta mil pacientes do hospício em Barbacena foram brutalmente assassinados, é fundamental que a temática retorne sempre, não apenas na compreensão artística da loucura, como também funcionando de crítica social.