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RESENHA | “Nasce uma Estrela”

Luiz Henrique Oliveira470 views

Nasce uma Estrela” é uma história conhecida desde a década de 30. Desde então, houve mais duas adaptações, nos anos 50 e 70, e desde então a história pareceu datada, e caiu no esquecimento. Apenas os mais cinéfilos lembravam das versões já feitas, sendo a última com a Barbra Streisand – considerada o remake “menos bom”. Pois bem: pelas mãos de Bradley Cooper, que produziu, escreveu, dirigiu, atuou, cantou e compôs as músicas, temos uma atualização desse enredo. Junto com ele está Lady Gaga, que pouquíssimas pessoas acreditaram que teria algum talento como atriz. O trabalho que esses dois fizeram neste filme é poderoso, marcante e emocional, o que o coloca com certeza entre os melhores filmes deste ano.

A proeza de Cooper foi tomar a história para si e não só dar uma cara nova a um roteiro antigo, mas sim colocar muito mais intensidade e emoção em seus personagens. Diferente de outras versões, este “Nasce uma Estrela” cola a câmera em seus protagonistas, o que faz com que nós sejamos apenas testemunhas dessa super intensa história de amor e sofrimento. E para a surpresa geral, o debut de Cooper nessa função dá um show em muito diretor veterano.

 

Pequenas alterações, grandes mudanças

Em comparação ao original e as posteriores regravações, “Nasce uma Estrela” ganha muito com as alterações que foram feitas para que ela coubesse em um mundo atual. É como se fosse retirado toda a “gordura” que a história foi ganhando ao longo do tempo e deixasse apenas o que importa. Quase não vemos outros personagens além de Jackson e Ally, papéis de Cooper e Gaga. Os que aparecem, é por pouco tempo – e brilhantemente, como depois comentaremos. O foco total está na relação dos dois, desde quando se conhecem em um bar de drag queens até o desfecho, dolorido e emotivo como poucos longas conseguiram nos últimos tempos, talvez comparável em força aos momentos finais de “Piaf – Um Hino ao Amor”, de 2007.

O mérito disso é de Bradley Cooper. Sua direção é precisa, sem exageros nem floreios que possam tirar a atenção de quem assiste. Tem um domínio técnico absurdo, e sabe muito bem aumentar a intensidade na hora certa. A contribuição também vem da direção de fotografia, feita por Matthew Libatique (colaborador do Darren Aronofsky). As cores são determinantes para demonstrar o estado de espírito de Jackson e Ally, o que aumenta a tensão ou o romantismo, dependendo do momento. Da mesma forma, a direção de arte é bem aproveitada. Tanto nos palcos quanto em momentos íntimos na casa dos protagonistas.

Dessa forma, “Nasce uma Estrela” já começa como um filme grande, com enorme potencial para a temporada de premiações. Até o momento, é o mais cotado para os principais prêmios. As mexidas na história transformaram o enredo batido em uma odisseia emocionante. É uma experiência muito bem realizada, onde transparece a paixão do diretor aliada a uma grande técnica.

 

Atuações gigantescas

O principal, contudo, está na frente das câmeras. Bradley Cooper está sensacional como Jackson Maine. Adotando todos os trejeitos de um rock star, convence muito com sua atitude despojada. A surpresa está em sua voz: ninguém imaginava que ele cantava tão bem. Considerando que as músicas foram gravadas ao vivo, é espetacular. Por outro lado, seu personagem é difícil e a sua luta contra a dependência do álcool é comovente. Cooper mais uma vez convence, e nós sofremos com ele, bem como nos embalamos quando ele demonstra seu amor. É um trabalho complicado, cheio de nuances e que logo de cara também tem grandes chances no Oscar.

Da mesma forma, Lady Gaga está fenomenal no papel de Ally. A surpresa aqui não é pela sua voz, mas sim pela sua atuação. Apostando em uma abordagem naturalista, ela passa verdade a sua personagem. Está realmente muito melhor que a última dona desse papel, Barbra Streisand. Gaga consegue um resultado incrível, que só peca em seu terço final, que soa um tanto quanto forçado. Entretanto, isso não atrapalha o resultado final. E a última cena compensa qualquer deslize. Aqui, ela se prova como grande atriz, seguindo os passos de outra grande performer: Cher.

Tendo como coadjuvantes os grandes Sam Elliot e o comediante Dave Chapelle (em um raro papel dramático), além das participações de Willam e Shangela (de Rupaul’s Drag Race), todos estão brilhantes. É difícil até mesmo escolher um favorito. Estão todos na medida, sem overacting ou despreparo. Cooper sabe mesmo como dirigir atores.

Suas cenas mais tranquilas são muito bem equilibradas, bem como o drama pesado que se segue. A discussão sobre o alcoolismo está presente, e seu terceiro ato, o final, é espetacular. Definitivamente, “Nasce uma Estrela” é o filme agridoce perfeito.

 

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.