Resenha | "Manchester à Beira-Mar" • MAZE // MTV Brasil
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Resenha | “Manchester à Beira-Mar”

Gustavo Mata1180 views

Ao longo da vida, é normal que o ser humano perca muito do que conquistou e do que tem: posses, amigos, familiares. É um ciclo que se repete e só se fecha quando a morte chega, mas a morte de um é a continuação do mesmo ciclo para outro.

Manchester à Beira-Mar é uma história que se cria em torno desse ciclo eterno de perdas, na objetividade de mostrar uma série de tragédias e luto em torno de Lee (Casey Affleck), o personagem principal do longa. Afastado de sua cidade-natal desde uma série de episódios catastróficos, o encanador-faz-tudo residente de Boston se vê obrigado a voltar à tal cidade depois da morte de seu irmão, tendo que lidar com toda as obrigações que este lhe deixou. Entre as obrigações de Lee, a maior de todas é ser o guardião legal de Patrick (Lucas Hedges), seu único sobrinho e agora órfão.

Silencioso do começo ao fim, é um filme que causa incômodo e comoção. De início, Lee vive sua vida mórbida em Boston, morando em um quitinete e vivendo de pequenos reparos e serviços prestados para outras famílias. Recluso, introspectivo, o personagem deixa pouco a transparecer no início da história, mas ao decorrer do longa, toda a sua trajetória é contado nos mínimos detalhes. De um homem feliz e sorridente, eventos tornam-lhe uma figura misteriosa, que não sabe lidar com os obstáculos que lhe foram colocados na vida. Por isso, acostumou-se a viver sozinho, fugido de toda a sua vida “anterior”.

Mas a grande mudança vem com a morte de seu irmão e seu necessário retorno à cidade de onde saiu. Lá, ele lida não só com os problemas que lhe foram atribuídos – cuidar da herança deixada para seu sobrinho, tornar-se seu guardião e organizar até mesmo o enterro do próprio irmão, – mas também com os fantasmas que lhe assombraram no passado.

O peso do luto na trama é gigantesco, e a atuação brilhante do trio principal de atores deixa claro que os personagens carregam em si feridas causadas pela perda. Michelle Williams, no papel de Randi  (ex-mulher de Lee), entrega mais uma performance incrível, arranca lágrimas do espectador e se mostra merecedora da indicação que recebeu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Na doçura após a tragédia, na dureza que mostrou quando ainda era casada, Randi é uma personagem complexa que moldou e muito a personalidade do ex-marido, e não fosse a interpretação de Williams, talvez passasse apagada no decorrer da história.

Já o estreante Lucas Hedges no papel do órfão Patrick dá um show de atuação. Entre o choque da notícia da morte do pai, os dramas da adolescência, a sua descoberta sexual e os ataques de pânico, o garoto transmite diferentes emoções e também faz jus a indicação ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Oscar, mesmo as chances de levar o prêmio sendo baixas (ele concorre com ninguém menos que Mahershala Ali e o favoritíssimo Dev Patel).

Casey Affleck, por outro lado, parece ser o mais provável do elenco a levar uma estatueta na noite mais badalada de Hollywood. No papel de Lee, o ator transparece uma vulnerabilidade surreal, mas isso tudo dentro de uma casca impermeável para aqueles que o rodeiam. É um jogo complexo de atuação do próprio personagem: ele finge estar bem para os outros, mas é nítido que está em ruínas. A atuação de Affleck é uma bomba surpresa no meio da temporada de premiações, e o ator tem Denzel Washington como seu maior concorrente. O páreo é pesado, mas Casey tem total capacidade (e mérito) de levar a estatueta. Há poucas atuações que marcam da forma como esta faz, e é válido que ela seja condecorada com um prêmio para que não seja esquecida.

E é isso que Manchester à Beira-Mar é, no fim das contas: uma surpresa. É um filme que foca basicamente na complexidade dos seus personagens, sem precisar falar muito. É um incômodo para o telespectador, uma pedra no sapato, mas é também uma satisfação gigantesca vê-lo. São de filmes assim que o cinema precisa para lembrarmos que a sétima arte continua viva e produzindo boas películas. Até porque, Manchester não é o tipo de filme que simplesmente se assiste: é o tipo de filme que se sente.

Gustavo Mata
Aspirante a escritor e amante da cultura pop, viciado em séries, filmes ruins e Britney Spears.