RESENHA #02 | "mãe!", o intrigante parto de Darren Aronofsky • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA #02 | “mãe!”, o intrigante parto de Darren Aronofsky

João Batista811 views

Muitas histórias parecem complexas pela maneira como são contadas, porém após seu desenrolar final, revelam-se simples ou metáforas rasas. “mãe!” de Darren Aronofsky com certeza não tem esse desfecho.

Perturbador provavelmente será a palavra mais utilizada para descrever este filme, que o espectador amando ou odiando (num mundo inundado na cultura da hipérbole, parece que temos somente estas duas opções) continuará a comentar por bastante tempo. Perturbação que não é uma novidade na carreira do diretor, que conta com “Pi”, “Réquiem para um Sonho” e “Cisne Negro” para representar este sentimento.

Na trama, Jennifer Lawrence vive uma mulhar jovem que está terminando de reconstruir a casa de seu marido poeta, vivido por Javier Barden, que foi destruída em um incêndio. O escritor está vivendo um bloqueio criativo e recebe o apoio de sua esposa para superar este momento. Tudo parece estar ocorrendo com uma rotineira tranquilidade até o momento em que um estranho (Ed Harris) chega numa noite e é acolhido prontamente pelo dono da casa. Outros “convidados” chegam, aumentando mais ainda o turbilhão de sentimentos que toma conta do lar.

Fica difícil entrar nos detalhes da trama sem estragar a experiência do espectador, mas o que temos certeza é que ficará desnorteado, sem entender o que realmente está acontecendo. Esse incômodo é notoriamente proposital, sendo realçado pela câmera inquieta e claustrofóbica do diretor e a cada impacto que sentimos com as situações de constrangimento social e de figura muitas vezes grotescas que Aronofsky insiste em expor, que levará alguns aos risos.

Quando a intenção da história finalmente fica clara, o restante pode parecer um pouco sem muito o que ser descoberto e o poder da metáfora central está intrinsicamente ligada a visão íntima que cada um tem do mundo. É aí que está a força ou a fraqueza deste filme. Provavelmente o indivíduo que não se identifica com a metáfora, o assunto que ela aborda, poderá se sentir um tanto quanto frustrado, sentindo até que o autor foi pretensioso, enquanto que outros podem ter a certeza de que acabaram de ser atropelados por um caminhão.

Jennifer Lawrence assegura a força deste atropelamento, demonstrado seu lado mais amadurecido como atriz, não sendo isso uma tarefa fácil visto que a câmera constantemente fecha em seu semblante, que transmite com maestria os momentos de serenidade e carinho ou suas explosões de mais pura raiva ao ver seu paraíso pessoal ser invadido. A casa funciona como um personagem, que até o segundo ato tem sua relação com cada um dos personagens bem caracterizado. Javier Bardem é seguro em seu texto, demonstrando sua experiência e delicadeza, apesar de algumas vezes sentirmos que as risadas partilhadas com quem chega ao recinto sem convite, parecem ser do nada para o nada. O ator espanhol consegue emular a face do escritor que deseja ser adorado por seu trabalho, mesmo que para isso necessite abdicar da paz de seu próprio lar.

Absolutamente intrigante, “mãe!” não é fácil de ser digerido. Surrealismo, alegorias, pretensão, ego… Todos estes elementos pontuam esta obra, que amando ou odiando, a tornam singular, colocando-a na galeria daquele tipo de filme que aparecem de tempos em tempos, e que será debatido por um longo período.

Colaboração : Guilherme Lourenço

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.