RESENHA #01 | “mãe!” é uma obra-prima de experiência sensorial • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA #01 | “mãe!” é uma obra-prima de experiência sensorial

Luiz Henrique Oliveira683 views

* Com Well Aires, colaborador especial

Um casal vive em uma casa semi-abandonada no meio do nada. O homem é escritor, poeta, que passa por uma crise criativa que o impede de repetir o sucesso de seu primeiro – e único – livro. A mulher se dedica a satisfazer as vontades de seu marido, sendo totalmente devota a ele, a ponto de reconstruir sozinha a casa onde moram, cômodo a cômodo. De repente, sem qualquer aviso, um estranho chega pedindo abrigo. A partir disso, uma série de eventos vão deteriorando não só a relação entre os dois, mas também o ambiente em que vivem. Essa pequena sinopse acima explica, sem explicar muita coisa, o que é o novo filme de Darren Aronofsky, o aguardado “mãe!”.

E acredite, quanto menos você souber sobre a trama e seus desenlaces, melhor. Entre no cinema sabendo apenas o básico, e você terá uma experiência sensorial completamente diferente de tudo que vem sendo produzido pelo cinema atualmente.

Metafísica e religiosidade

A história de “mãe!”, por incrível que pareça, não é o que importa. A trama segue uma linha que inicialmente se assemelha a um filme de terror como qualquer outro lançado no circuito todos os anos, mas já no primeiro frame fica evidente que a intenção de Aronofsky é usar das metáforas para contar algo ainda mais profundo. Na internet já aparecem dezenas de interpretações para os personagens sem nome e para a casa onde eles moram, e a grande graça da coisa é que cada um pode ter a sua interpretação.

Porém, são fortes os temas bíblicos e metafísicos que podem ser encontrados, de certa forma, no filme. Não seria a primeira vez que o diretor entra nesses assuntos: “Noé” e “Fonte da Vida” são grandes exemplos do interesse que Aronofsky demonstra por essas duas vertentes. Mas é aqui que ele chega ao ápice mascarando as verdadeiras intenções do roteiro dentro de simbologias e metáforas, onde nada é o que parece, nada pode ser interpretado de forma literal. E acredite: isso é uma enorme vantagem em um mundo rodeado por franquias de super-heróis e filmes que parecem celebrar a própria falta de ambição intelectual. Aqueles que gostam de encontrar significados ocultos em cenas, enquadramentos e diálogos terão um prato cheio.

Parabéns a todos os envolvidos

A direção de fotografia de “Mãe!”, capitaneada por Matthew Libatique – grande companheiro do diretor em outros longas, como “Cisne Negro”, assim como a direção de arte do filme, é impecável. A câmera nervosa acompanha a personagem de Jennifer Lawrence o tempo inteiro, com closes em suas reações perplexas diante da série de eventos bizarros que acontecem durante a projeção, enquanto o único cenário, a casa dos dois, é quase literalmente vivo, com espaços que parecem enormes ou claustrofóbicos dependendo da ação que está se passando. Isso sem contar o design de som, importantíssimo para o desenvolvimento e ambientação de “mãe!”, já que não há qualquer trilha sonora: tudo que ouvimos são os diálogos, os sons vindos da casa e da interação dos personagens com ela, e principalmente o silêncio. São os enormes silêncios que criam o clima, opressivo e inquietante do começo ao fim.

Com tudo isso, é importante destacar as atuações. Enquanto Javier Bardem entrega uma figura complexa, mas sem grande destaque para o seu papel, Jennifer Lawrence se joga de corpo e alma: ela passa da passividade com que devota suas atenções ao marido a mais completa perplexidade com a barbárie que acontece ao seu redor. Sem dúvida, é um dos grandes papéis de sua carreira, que ela enfrentou com coragem e entregou uma interpretação brilhante. Ed Harris e Michelle Pfeiffer também estão no auge, interpretando o casal que inicia o tormento na vida da mulher interpretada por Lawrence, com mais destaque para Pfeiffer, que já desponta com chances reais de receber uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante na pele de uma mulher misteriosa, cuja ações e palavras são extremamente ferinas.

A grande obra que precisa ser descoberta

O filme recebeu vaias no festival de Veneza, e tem sido massacrado pelo público nos Estados Unidos. Não é a primeira e nem será a última vez que um filme dito “difícil” passa por uma situação como essa, já que regra geral, as obras com certo grau de profundidade demoram para serem reconhecidas plenamente. Parece ser o caso de “Mãe!”: o filme pode não ser entendido totalmente agora, mas parece não haver qualquer dúvida de que daqui a algum tempo será reconhecido como uma obra-prima.

A união de ótima técnica com um enredo tão focado nas metáforas permite ao longa ter um lugar privilegiado nos lançamentos deste ano. O filme é difícil e complicado, mas prende a atenção com louvor, e seu terceiro ato ressignifica tudo que foi visto até então, permitindo ao espectador criar suas próprias interpretações sobre qual é o verdadeiro objetivo da história.

E essa é a marca dos grandes filmes já produzidos e que hoje são considerados clássicos: permanecer na cabeça das pessoas, gerar discussão e permitir que cada uma delas tenha a sua própria versão. Essa é, afinal, a verdadeira função da Arte.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.