RESENHA | "Madame X" traz a Madonna que todos sentiam falta • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | “Madame X” traz a Madonna que todos sentiam falta

João Batista4971 views

Desde a sua estreia na indústria fonográfica nos anos 80, Madonna sempre se mostrou autêntica, ousada e destemida de uma maneira diferente em cada um de seus álbuns. E tal característica fez com que todo disco que a cantora lançasse fosse um verdadeiro evento.

Entretanto, tudo que aconteceu em sua discografia após o emblemático “Confessions On a Dance Floor” não teve o mesmo impacto madonnístico. Não é surpesa para ninguém que a tríade “Hard Candy”, “MDNA” e “Rebel Heart” divide muitas opiniões, e que se não fosse pelas suas respectivas turnês mundiais, não teriam tanta relevância assim na cronologia de seus álbuns. “Rebel Heart”, por exemplo, tem uma sonoridade confusa, além de não ter um muito conceito marcante – sem contar que seu vazamento super antecipado não ajudou muito a recepção dos fãs. Ficou difícil de imaginar o que poderia vir depois dali.

Capas das versões standard e deluxe de "Madame X", de Madonna.
Capas das versões standard e deluxe de “Madame X”, de Madonna.

Eis que a cantora nos apresenta “Madame X”, que segundo ela é “uma agente secreta viajando ao redor do mundo, trocando sua identidade, lutando por liberdade, trazendo luz a lugares sombrios”. Contextualizado pela sua vida em Lisboa e sua paixão por diferentes culturas, desta vez Madonna trouxe um conceito muito mais robusto representado pela persona multifacetada que dá nome ao álbum e que justifica toda a sua pluralidade.

A seguir, uma resenha faixa-a-faixa de “Madame X”, novo trabalho de Madonna:

MEDELLÍN: Uma das últimas faixas a entrar no projeto conta com participação de Maluma e foi escolhida para lead-single. A princípio dividiu opiniões, mas não dá pra negar que a sofisticada produção de Mirwais é de tirar o chapéu.

DARK BALLET: Ame ou odeie, mas essa faixa merece sua atenção por ser, de longe, a mais experimental já lançada por Madonna. Com moldes de rapsódia, sua composição não é tão profunda perto de outras canções com crítica social da cantora, mas o conjunto da obra fala mais forte.

GOD CONTROL: Os primeiros instantes desta faixa ainda nos deixam conectados a “Dark Ballet”, com Madonna interpretando os versos iniciais com uma voz aparentemente amordaçada (seria uma referência à capa do álbum?), mas não demora muito para um coro poderoso surgir e a faixa, uma crítica ao controle de armas dos EUA, se revelar como uma das mais empolgantes e dançantes de todas.

FUTURE: A parceria com Quavo, apresentada como um dos singles promocionais, tem produção de Diplo e passa quase que despercebida por aparentar ser uma versão desajeitada de “Unapologetic Bitch”.

BATUKA: Acompanhada do grupo português Batukadeiras, Madonna mostra mais uma veia social numa produção com sonoridade africana, cheia de percussões e alguns sintetizadores que dão um pequeno toque urbano pra faixa.

KILLERS WHO ARE PARTYING: Aqui percebemos o primeiro vestígio explícito da tão inspiração portuguesa que Madonna teve para o disco. Em forma de um fado, a faixa funciona como uma espécie de manifesto político com direito à refrão em português. No mínimo, interessante.

CRAVE: Uma das mais comerciais do álbum, não foi à toa que a urbana “Crave” foi logo escalada para ser single. A parceria com Swae Lee tem refrão chiclete e carrega uma composição apaixonada que beira o vulnerável.

CRAZY: Mesmo não sendo muito marcante, é divertida e quando você menos espera se pega cantando. Mais uma vez, Madonna arrisca seu português carregado e ganha mais pontos com a gente!

COME ALIVE: Eis a primeira faixa totalmente dispensável. Se “Future” é a prima desajeitada de “Unapologetic Bitch”, então “Come Alive” pode ser facilmente lida como a meia-irmã sem carisma de “Body Shop”.

EXTREME OCCIDENT: Presente apenas na versão deluxe, esta foi a primeiríssima amostra que conferimos lá no primeiro teaser de “Madame X”. Gastando novamente seu português em alguns versos, podemos ver uma Madonna mais dramática acompanhada de elementos orientais, dando bastante sentido para o título da canção.

FAZ GOSTOSO: A tão aguardada parceria com Anitta é, na verdade, uma regravação do hit da portuguesa Blaya, que nesta nova versão se transformou uma divertida homenagem bilíngue ao Brasil totalmente despretenciosa e com altas chances de viralizar por aqui.

BITCH, I’M LOCA: A outra parceria com Maluma não é ruim, mas nessa altura do campeonato, pode ser considerada desnecessária. Um reggaeton genérico que poderia ter ficado perdido em algum b-side ao longo do caminho. Divertida, mas totalmente dispensável.

I DON’T SEARCH, I FIND: Saudades da Madonna de vanguarda? Com o seu característico tom de voz grave que conhecemos lá de “Justify My Love” e “Erotica”, aqui ela nos mostra que ainda sabe nos colocar para dançar. Bate até uma nostalgia.

LOOKING FOR MERCY: Assim como “Extreme Occident”, esta também está presente (injustamente) só na versão deluxe. Em seu ápice de vulnerabilidade, “Mercy” possui uma produção futurista minimalista que culmina em um arranjo de cordas que dá um tom épico para a faixa. Aqui Madonna mostra que ainda sabe fazer canções sentimentais, e que sofre de amor como todo mundo, tá?

I RISE: Já conhecida como single promocional, a faixa bem produzida que encerra o ciclo “Madame X” é um hino otimista podendo facilmente se ajustar ao mesmo tom político e social levado ao longo de todo o disco.

***

Controversa, divertida e debochada, Madonna voltou relevante e em ótima forma com “Madame X”. Depois de arriscar (sem se desculpar por isso) em três álbuns duvidosos, ela resgatou sua plenitude no pop sabendo renovar sua arte sem soar caricata neste disco. Pela primeira vez em muito tempo, não precisou usar de muito narcisismo para provar que ainda está no jogo no melhor estilo “ame ou odeie” que já vimos em outros momentos de sua carreira. Com certeza não será o favorito de muitos, mas é muito provável que a grande maioria se lembrará da passagem desta Madame pela indústria.

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.