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RESENHA | “Hereditário”

Luiz Henrique Oliveira719 views

Não se fazem mais filmes como “Hereditário“. Desde muito tempo, os gênero de terror sofre mutações ano a ano para conseguir atrair mais público. Seu auge se deu na década de 70, com filmes como “O Exorcista” ou “A Profecia” sendo os maiores expoentes das produções dedicadas a deixar o público tremendo na cadeira. Nos anos 80 veio a popularidade dos (ótimos) filmes da série A Hora do Pesadelo – aquela com o Freddie Krueger – e depois, já nos anos 90, veio o suspense adolescente de “Pânico“.

Após isso, poucas coisas conseguiram se salvar, e aquele espírito clássico, do terror mais sugestivo, foi se perdendo no caminho, em troca do susto fácil e jump scares.

Por sorte, está havendo um resgate do terror em seu sentido mais literal.

O horror está nas sombras

A grande sacada de “Hereditário” é construir toda a tensão em silêncios e olhares dentro da família retratada no longa. Não há susto fácil: as cenas são longas, construídas com cuidado na direção e na atuação e isso faz com que o incômodo seja quase palpável. A trama é aparentemente simples: depois da morte da avó, matriarca da família, os Graham lidam com o luto de formas diferentes. Há a filha, o genro e os netos. Cada um deles reage à ausência da velha senhora com sentimentos diversos, como o sentimento de culpa, a saudade, a auto-flagelação por conta de uma vida com falta de sintonia. Porém, eventos estranho começam a acontecer e que levam os Graham em um turbilhão de dúvidas e horrores.

Tudo isso seria até clichê se não fosse o intenso trabalho do diretor estreante Ari Aster. Sendo também o roteirista do longa, ele imprime a sua visão do que é a construção de tensão e viradas de terror sem apelar para os recursos banais que 11 em cada 10 filmes do gênero acabam caindo atualmente. O filme começa com um tom e vai crescendo à medida que o tempo passa, em suas cenas longas e tensas, até o clímax que divide opiniões: enquanto uns acham clichê e risível, outros consideram sensacional, uma obra-prima apoteótica. Não vá ao cinema esperando cenas que te fazem pular da cadeira, mas sim um filme que vai te deixar tão aflito que vai ser impossível parar de pensar nele quando sair da sessão.

Qualidade técnica + atuações memoráveis

No centro de todo o filme está Toni Colette. A excelente atriz já tem uma indicação ao Oscar na bagagem por um filme de terror revolucionário (ela é a mãe do menino que vê espíritos em “O Sexto Sentido” e por esse longa foi indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante) e aqui tem tudo para ter sua atuação sendo reconhecida nos mais diversos festivais e premiações. Seu trabalho como Annie Graham é espetacular, pois dá profundidade a uma personagem difícil — as tragédias seguidas no centro de sua família a despedaçam e nós, como espectadores, sempre ficamos na dúvida se tudo o que está acontecendo é algo da sua mente perturbada ou se é real. Poucas atrizes conseguem esse feito. Para a sorte de “Hereditário”, não só ela está fenomenal: Gabriel Byrne (há muito sumido das telas) volta em um papel contido e profundo, como o cuidadoso esposo de Annie e que vai embarcando, aos poucos, na desintegração da sua vida familiar; assim Alex Wolff e Milly Shapiro, os filhos, que têm papel central na trama e carregam muito bem seus papéis.

A qualidade técnica envolvida no filme é surpreendente para um diretor estreante como Aster. A direção de arte remete aos clássicos do cinema de terror (como “O Iluminado“, por exemplo) e sempre nos traz a sensação de isolamento, necessária para que possamos “comprar” a história. E principalmente, em um filme que envolve silêncios e sem trilha sonora retumbante, o design de som é impecável. Boa parte da sensação de urgência constante e pavor vem dos sons nos quartos escuros da casa no meio do nada.

Filme difícil, mas recompensador

Muitas pessoas tendem, em “Hereditário”, a rirem nos momentos mais cruciais da trama. Muitas dão o “riso de nervoso”, aquela sensação em que você precisa rir para não sair correndo ou desabar em choro, enquanto outras nem mesmo sabem porque estão rindo: pode ser que considerem algumas cenas primordiais do longa como algo engraçado, e por isso ele tem dividido opiniões entre o público. Acontece que, desacostumados com o chamado “terror de sugestão”, onde as coisas que realmente assustam não precisam ser mostradas mas sim sugeridas, as pessoas não entendem o seu forte simbolismo e o poder aterrorizante daquilo que não podemos enxergar.

Não se pode culpar o público. Depois de anos e anos condicionados a assistir “Jogos Mortais” e seus derivados, é bastante claro que em um filme impecável, cuidadosamente escrito e dirigido para nos provocar o mais profundo incômodo não só com suas cenas mas também com sua temática, a primeira reação é a de não achar graça em algo que podem julgar como “parado” e “sem sentido”. É uma questão de costume e de gosto meramente pessoal. Porém, mesmo que não se ache o filme tudo isso, é impossível negar que ele foi maravilhosamente realizado. É um exemplar raro, que nos traz de volta a sensação de terror real, sem sustos gratuitos, além de nos mostrar, nas entrelinhas, que os sentimentos represados no convívio familiar podem acabar por destruí-la.

E, para quem passa o filme inteiro se perguntando o por que dele se chamar “Hereditário”, é um deleite perceber que a resposta só chega na cena final. Tudo passa a fazer sentido — e a sensação de incômodo aumenta ainda mais.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.