Resenha | James McAvoy rouba a cena em "Fragmentado" • MAZE // MTV Brasil
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Resenha | James McAvoy rouba a cena em “Fragmentado”

João Batista3548 views

O ser humano é fascinado pela sua própria capacidade de desconstruir tudo que encontra pela frente para compreender o seu mundo mais a fundo. Nós temos a tendência de desmontar qualquer coisa e analisar minuciosamente cada parte, cada unidade – nós o fazemos com as camadas do planeta Terra, com todos os eventos históricos, os funcionamentos de eventos criados pelo próprio homem, desde em esportes de massa como no caso  da Copa do Mundo até no caso de esportes de nicho, como no poker. Mas até que ponto você consegue isolar e compreender todos os funcionamentos do cérebro humano?

No novo filme de M. Night Shyamalan, Fragmentado, vemos que o autor e diretor colocou os dois pés nessa discussão. O protagonista, interpretado por James McAvoy, possui 23 personalidades diferentes, e a altera de acordo com sua vontade – antes que me crucifiquem por spoilers, isso consta na sinopse do filme! Ele sequestra três adolescentes no estacionamento e temos de cara a jornada do filme: se elas escaparão ou não do cativeiro mantido por esta(s) personalidade(s) deslizante(s). 

Antes de mais nada, James McAvoy, que estourou no filme O Último Rei da Escócia e é provavelmente mais conhecido como o jovem Professor Xavier, rouba a cena.

Kevin, nome de quem encarna nesse filme, é o tipo de personagem que, se mal interpretado, afunda não só o seu papel como o filme inteiro. Todo o desenvolvimento da história passa necessariamente pelas variações de personagem – e McAvoy crava todas as nuances. Com uma leve mudança de postura, um leve gesto, o público já vê que não é a personalidade X que está no “holofote”, como falam no filme, mas a personalidade Y. McAvoy poderia sustentar o filme por si só, mas M. Night Shyamalan faz um bom trabalho com a trama e os funcionamentos internos de Kevin. 

Tematicamente, o filme mergulha nos mistérios do cérebro, como ele age na proteção do indivíduo e como ele pode potencializar o ser humano. Embora se sustente pela lateral do fantástico, temos uma temática bastante delicada em discussão. Em algumas cenas, uma das personalidades de Kevin, Hedwig, uma criança, dança no seu quarto. Se retirarmos essa cena do contexto, é engraçado vermos James McAvoy dançando como se tivesse oito anos. Dentro do contexto da doença mental, não tem a menor graça. E cravar essa nuance, esse questionamento, é um tiro certeiro de Shyamalan. 

No núcleo das adolescentes, por assim dizer, destaque para Anya Taylor-Joy, a mesma atriz de A Bruxa, sucesso absoluto no gênero de suspense e terror no ano de 2015. Mais uma vez inserida num suspense, Taylor-Joy mostra um leque mais rico que suas duas colegas no filme. 

Por fim, acho essencial falarmos de M. Night Shyamalan. Ele atingiu um nível de desconfiança tal que, toda vez que ele se aventura em uma nova produção, o público se questiona: será que vai ser um fracasso como “Dama no Lago”? Ou será que ele se reinventou e fez mais um O Sexto Sentido? Bom, por sorte, nenhum dos dois. E talvez esse seja o grande mérito de “Fragmentado”. 

Sem a incessante tentativa de ser mais inteligente que ele mesmo, M. Night Shyamalan se preocupou em criar uma trama sustentada por um personagem – justiça seja feita, com 23 personalidades diferentes – e se aprofundou nas nuances dele, das pessoas ao seu redor e sua relação com o mundo. Por isso que afirmo que uma perfomance abaixo da de James McAvoy e teríamos um fracasso, só que isso – ainda bem – não acontece. 

Fragmentado” é um bom filme de suspense no qual M. Night Shyamalan se dedicou à criação de personagens mais do criar enredos mirabolantes, e isso é salutar tanto para este filme quanto sua obra em geral. Contando com uma ótima atuação de James McAvoy – como ele não teve reconhecimento em 2016? – “Fragmentado” é um filme de suspense que vai te mergulhar na trama e nas personalidades de Kevin.

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.