RESENHA | "Dunkirk" • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | Apesar dos pesares, “Dunkirk” é um espetáculo visual incrível

Luiz Henrique Oliveira2286 views

É muito complicado falar sobre qualquer coisa que envolva Christopher Nolan.

O diretor inglês vem recrutando um exército de seguidores desde o começo dos anos 2000, quando lançou o (verdadeiramente) revolucionário “Amnésia”, que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Depois disso, ao assumir os filmes do Batman para a Warner e criar a chamada “nova trilogia”, assumiu para si uma aura de gênio da sétima arte, com filmes esteticamente refinados e uma pretensa complexidade, que aumentou a cada novo projeto. “A Origem” e “Interestelar”, seus filmes seguintes aos do Homem-Morcego, são longas realmente longos – todos com mais de duas horas de duração – e com uma qualidade e um defeito em comum: ao mesmo tempo em que embebedam o público com imagens impactantes e muito bem dirigidas, pecam no alto grau de pretensão, enrolando os espectadores com “barrigas” de roteiro (ou seja, histórias que não levam a lugar nenhum dentro da narrativa) e pseudo-intelectualidade demonstrada na verborragia dos personagens. Todos falam demais, explicam demais, não deixam espaço algum para quem assiste pensar por conta própria; a auto-explicação está presente em praticamente todos os filmes de Nolan, e isso tira a força da maioria de suas obras.

Eis que de repente ele anuncia “Dunkirk”, um filme cuja ação se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Envolto de euforia e dúvida, a produção demonstra ser a obra mais equilibrada do diretor.

Pôster de “Dunkirk” – Christopher Nolan, 2017.

A Operação Dínamo

Todo o filme acompanha três histórias diferentes que acontecem dentro da mesma ação: a Operação Dínamo, também conhecida como A Batalha de Dunquerque, operação de resgate de soldados que aconteceu entre 25 de maio e 4 de junho de 1940. O grande diferencial dessa ação de guerra é que nela quase não há participação do exército nos atos de heroísmo – o salvamento dos 400.000 soldados encurralados pelos alemães na praia francesa ocorreu por conta da coragem de centenas de civis que se arriscaram, com seus barcos particulares, a enfrentar a poderosa armada nazista. Não há soldados americanos salvando o dia. Não há o piloto corajoso jogando uma bomba certeira na hora certa para acabar com o conflito. Toda a ação é comandada e centrada na coragem de homens comuns, armados apenas da vontade de tirar os combatentes aliados da situação de perigo.

E para filmar essa ação, Nolan utilizou câmeras IMAX, expediente que ele utiliza desde os filmes do Batman. Entretanto, sem a menor dúvida, é nesse filme que ele faz o melhor uso das grandes lentes, possibilitando um espetáculo visual de encher os olhos.

A direção de fotografia de Hoyte van Hoytema é cirúrgica. A câmera colada aos corpos dos soldados durante o fogo cruzado e a paleta de cores puxada para o cinza-azulado, aliado aos efeitos que produzem a sensação de estarmos assistindo a um filme antigo em 70mm são os maiores atrativos, possibilitando que os espectadores estejam “dentro” da ação junto com os personagens e ambientando a história de uma maneira precisa. A direção de Nolan é, talvez, a sua melhor até o momento: sem as firulas visuais que marcaram sua carreira até aqui, o diretor produz o típico “filme-de-guerra”, com ação desenfreada e muita emoção aflorada. Não se encontra aqui os defeitos de filmes anteriores, como o excesso de auto-explicação, quando os personagens precisam verbalizar o que estamos vendo; isso acaba gerando um filme enxuto, com menos de duas horas, e torna-se a produção mais concisa do diretor até o momento, o que por si só é um grande avanço.

Mas há problemas. E eles impedem que o resultado seja a obra-prima que todos esperavam.

Os defeitos de Dunkirk

Talvez Nolan não seja uma pessoa muito segura de seu talento, apesar da intensa campanha de marketing para vendê-lo como um novo Stanley Kubrick. É fácil afirmar isso assistindo a “Dunkirk”, quando se percebe que ele abusa demais da trilha sonora para induzir os sentimentos do público. Muitas pessoas podem acabar louvando o longa sem perceber esse truque, mas dificilmente filmes assim resistem ao tempo. Ficam datados.

E por mais que o talento de Hans Zimmer seja indiscutível (afinal, o homem criou as melodias que embalam filmes como “Gladiador”, “Sherlock Holmes” e “O Rei Leão” – pelo qual ganhou o Oscar), neste trabalho há um evidente exagero de modo a provocar as sensações do público, que pode causar um incômodo. Quase não há momento em que não haja música no filme, seja para enfatizar o perigo, seja para glorificar o heroísmo.

No campo das atuações, apesar de todas estarem muito corretas (em especial a grande surpresa do longa, Harry Styles, em sua primeira atuação profissional e roubando a cena, provando ter mais talento do que se supunha), o roteiro escrito por Nolan desliza na última meia hora, quando toda a tensão construída nas três histórias que acompanhamos ganha uma resolução rápida, apressada. Essa sensação se dá porque ele já abre o filme de forma eletrizante, e mantém essa energia o tempo inteiro. Não existe momento de baixa em “Dunkirk”, é uma situação de limite atrás da outra… até o terceiro ato. No filme, Nolan brinca com o tempo (cada história se passa em um tempo particular – uma dura uma semana, outra um dia, e a última, uma hora) e em alguns momentos esse alargamento da linha temporal causa uma confusão, meio que um nó na percepção de quem assiste. Como todo isso se junta?

***

Apesar dos pesares, analisando o conjunto como um todo, “Dunkirk” é o filme-de-guerra que todo cineasta sério faz em algum momento de sua carreira. Sem a menor sombra de dúvida, é a maturidade cinematográfica de Christopher Nolan, onde ele conseguiu o maior controle de sua visão e estilo a serviço de uma boa história. O longa é o filme mais humano da carreira do diretor. As atuações estão mais naturais, longe do estilo mecanizado de seus outros blockbusters. É também o que melhor faz uso dos efeitos de som, ensurdecedores em certo ponto, o que aumenta a agonia por nos sentirmos mergulhados no horror da guerra. É presença certa no Oscar ano que vem em todas as categorias principais; a dúvida que fica é se o filme resistirá a uma segunda impressão.

A guerra acontece na tela (e por favor, este filme DEVE ser visto no cinema), mas o bombardeio real acontece na cabeça dos espectadores: não há tempo para descanso quando o filme te dá uma porrada atrás da outra. A mensagem que ele traz como moral da história é um tanto quanto batida, pode soar cansativa e até clichê. Justamente por isso – e da força das suas imagens – “Dunkirk” fica na memória ao sair da sala de cinema; porém, não é possível ter certeza se ele permanecerá caso seja visto novamente.

Luiz Henrique Oliveira

Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.