Resenha: "Como Eu Era Antes de Você" e o valor do altruísmo e das escolhas • MAZE // MTV Brasil
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Resenha: “Como Eu Era Antes de Você” e o valor do altruísmo e das escolhas

Sarah Lenievna3120 views

Em anos de leitura, passeando entre os clássicos de capa dura e pelos lançamentos de frente de vitrine das livrarias; entre a dita literatura “difícil” e a igualmente dita literatura “fácil”; entre autores celebrados e desconhecidos, cheguei à três conclusões:

1. Não é porque todo mundo leu que é bom;
2. Não é porque um livro é complicado de ser lido – recheado de metáforas e frases intrincadas – que quem não consegue entendê-lo é burro.
3. São poucos os livros que tenho vontade de ler uma 2° vez.

Jojo Moyes, escritora britânica de 45 anos, teve sua primeira obra publicada em 2002. Antes de se verter ao mundo da literatura, a moça era jornalista do The Independent, inclusive chegou a trabalhar como correspondente na China. Desde então, a autora já lançou 12 livros. Em 2012, foi a vez de Como Eu Era Antes de Você ser publicado. O livro vai virar filme ainda em 2015, com Emilia Clark (a Daenerys Targaryen, de Game of Thrones) e Sam Claffin (o Finnick Odair, de Jogos Vorazes) nos papéis principais.

como eu era antes de você jojo moyes critica resenha maze blogComo Eu Era Antes de Você (Me Before You, no original), à primeira vista, pode parecer seguir a velha fórmula batida dos romances juvenis de hoje em dia, mas não se engane. Assim como em outros livros da autora, a história não se reduz a um simples romance ou a intrigas entre namorados. Também não fala sobre seres sobrenaturais – vampiros, anjos, lobisomens – nada disso. Trata-se de uma história sobre seres humanos reais – como eu e você – e cujo pano de fundo trágico provoca reflexões ao virar de cada página. Antes de mais nada, é bom que fique claro: não estamos falando de uma história feliz.

Louisa Clark tem um vida simples, sem emoções avassaladoras e supresas inesperadas. Mas ela gosta, até porque, jamais conheceu uma realidade diferente daquela. Namora com um cara de quem acha que gosta e não pensa muito sobre o futuro. Ah, ela tem 26 anos, o que ajuda bastante a dar o toque de maturidade que o enredo exige. História madura, personagens maduros. Will Traynor, jovem rico da alta sociedade inglesa, ficou tetraplégico após um acidente, do qual foi vítima da imprudência alheia. Fadado a passar o restante da vida preso a uma cadeira de rodas, de forma irreversível e obrigado a passar o resto do seus dias dependendo dos cuidados dos outros. O chamariz necessário para a depressão e a não-aceitação.

Louisa, após ser demitida do seu emprego de seis anos, se vê na rua da amargura, desempregada, e incapaz de ajudar a manter a família – pai, mãe, avô e uma irmã mãe solteira. Após mal sucedidas empreitadas em empregos variados – incluindo a tenebrosa fábrica de frangos – a jovem começa a trabalhar como acompanhante de Will. À partir desse encontro – gerado pela necessidade – inicia-se uma busca desesperada, mas altruísta e admirável na essência. E contra o relógio.

A todo momento, na relação entre os dois, Will  incentiva Lou a sair do seu status quo, impulsionando-a e incentivando-a a sair daquela cidadezinha inglesa e ir viver, expandir os horizontes, viajar, conhecer outros lugares. E não isso que afinal todos nós queremos? Alguém que não desista de nós e tente extrair o melhor que podemos dar? Ter a coragem de sair da nossa maldita zona de conforto?

A escrita é fluida e verdadeira. O tipo de livro que você acaba de ler em dois dias, e leva para todos os lugares. Não se trata de um romance em que a mocinha passa o tempo todo se derretendo por um cara ou vice-versa. Não cansa. Trata-se do diálogo entre duas pessoas, cada uma ferida e magoada à sua maneira, tentando a todo momento se ajudarem e se convencerem de que há outras possibilidades além daquelas que se pode ver.

“— Sabe de uma coisa?
Eu podia passar a noite toda olhando para ele. Para o brilho no canto dos seus olhos.
Para o lugar onde o pescoço encontrava o ombro.
— O quê?
— Às vezes, Clark, você é a única coisa que me dá vontade de levantar da cama.”

Foram poucas as vezes em que senti um aperto no coração ao chegar ao final de um livro e, definitivamente, foi o que senti ao chegar ao final deste. É um drama, mas com pitadas de humor tão singelas, seja nos diálogos ou nas cartas/e-mails,  que você começa a rir sozinho, e sente ao mesmo tempo uma dor no peito genuína.
É, são tempos difíceis para os que sofrem de emocionite aguda…


Como Eu Era Antes de Você
é uma história de amor e de busca. Busca por uma vida melhor, busca por uma solução, busca por uma fuga da realidade. Mas, acima de tudo, é uma história sobre o livre arbítrio de cada ser humano. Porque mesmo que tudo nos seja arrancado, sempre teremos o poder da escolha.

P.S.: Sim, ele também está no meu seleto grupo de “livros que quero ler pela segunda vez.” E pela terceira, quarta, quinta…


[UPDATE – 26/02/15] 
Em um comunicado feito através do seu site oficial, a autora Jojo Moyes garantiu uma sequência para Como eu era antes de você, que se chamará em inglês After You (Depois de Você, numa tradução literal) e será lançada na Inglaterra no dia 24 de setembro. O filme, entretanto, só será lançado em 2016. Leia abaixo o comunicado traduzido:

Eu não tinha planejado escrever uma sequência para “Como eu era antes de você”. Mas ao trabalhar no roteiro do filme, e ler o volume de tweets e e-mails que chegam todo dia perguntando o que Lou fez de sua vida, ficou claro que os personagens nunca me deixaram. Tem sido um prazer revisitar Lou e sua família, e os Traynors, e confrontá-los com uma nova gama de questões. Como sempre, eles têm me feito rir e chorar. Espero que os leitores se sintam da mesma forma ao encontrá-los novamente.

Sarah Lenievna
Amante de rock, cinema e futebol.