Resenha | "Até o Último Homem" poderia ter sido um clássico, mas é só bom entretenimento • MAZE // MTV Brasil
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Resenha | “Até o Último Homem” poderia ter sido um clássico, mas é só bom entretenimento

Luiz Henrique Oliveira5202 views

Mel Gibson gosta de uma polêmica. Ele, que estava em baixa por conta de seus inúmeros problemas com álcool e conhecido por ser tão cristão quanto anti-semita, procurava por um novo projeto desde “Apocalypto”, de 2006. Desejava algo que poderia ser seu grande retorno, para incluir mais uma obra-prima ao seu currículo depois de “Coração Valente”, de 1995. Encontrou o plot perfeito no roteiro de Até o Último Homem: a história absurda, porém real de Desmond Doss, um jovem religioso que resolve se alistar para lutar na Segunda Guerra Mundial, com a intenção de não tocar em nenhuma arma.

Você, leitor que ainda não conhecia o enredo, provavelmente pode não acreditar que isso aconteceu de verdade. Pois aconteceu: na emblemática Batalha de Okinawa, ele salvou 75 soldados sem disparar um tiro sequer. Doss morreu em março de 2006, de problemas respiratórios, aos 87 anos. Um homem com uma história de vida tão incrível era um filme apenas esperando para acontecer. E Mel Gibson,  Porém, ele entrega um filme visualmente impactante, mas de história frouxa.

Uma montanha-russa em três atos

Como quase todo filme, “Até o Último Homem” é dividido em três atos, sendo que os problemas começam logo no primeiro: Andrew Garfield, o intérprete de Doss no filme, entrega uma atuação que beira a caricatura. Seu personagem é excessivamente ingênuo e sua noção de cristianismo chega a ser engraçada. Seus embates com sua família no interior dos Estados Unidos na década de 40 soam artificiais e melodramáticos em excesso, e praticamente todas as cenas onde Desmond aparece são emolduradas pela fotografia com uma luz que quer indicar a sua santidade, mas só demonstra a mão de ferro com que o diretor comanda essa parte da narrativa.

A segunda parte, com Desmond indo para o treinamento militar, já demonstra uma qualidade de direção melhor, porém os problemas de roteiro persistem: parece evidente que houve uma dramatização da história ao adaptá-la para as telas, pois é praticamente impossível que os militares de alta patente, em meio de uma guerra sangrenta, tivessem tanta complacência com alguém que simplesmente se recusa a pegar em armas. É aqui que os problemas ideológicos começam: Gibson, um fervoroso católico, imprime sua crença e tudo começa a indicar que Desmond é, na verdade, um guiado de Deus. É sua missão divina participar dessa guerra, é sua virtude cristã que o faz querer entrar no campo de batalha. E, nas entrelinhas, isso quer dizer: Deus está do lado dos americanos na guerra.

A sutileza da mensagem some quando finalmente nos é apresentada a Batalha de Okinawa, sangrenta e gráfica como poucas no cinema. Pelo visto, Gibson aprendeu as lições de “A Paixão de Cristo”, filme que ele dirigiu em 2004: violência gráfica gera buzz e dá bilheteria. “Até o Último Homem” mostra a guerra com imagens tão fortes que podem causar incômodo em algumas pessoas. As atuações melhoram, o filme todo sobe de nível. Porém, Desmond parecem sempre estar revestido de uma proteção divina, como se ele – e somente ele – fosse intocável diante de balas e granadas. Definitivamente Até o Último Homem não é um filme anti-guerra, pelo contrário: inverossímil é pouco.

Deus não é brasileiro, é americano

O quinto filme dirigido por Mel Gibson, portanto, é brilhante como técnica e pobre como intenção. Todo o buzz referente ao longa, incluindo as suas seis indicações ao Oscar neste ano, dão a falsa promessa de estarmos diante de um novo clássico – e até seria verdade, não fossem as escolhas ideológicas extremamente duvidosas que o diretor imprime em sua narrativa. Em teoria, Deus não tem nacionalidade, mas em “Até o Último Homem” ele não só é americano, como dá pra imaginá-lo vestido de Tio Sam.

Até o Último Homem é um bom entretenimento, mas prova que poderia ter sido muito maior nas mãos de um diretor menos comprometido com uma visão tão distorcida da realidade.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.