Por que Capitã Marvel tem incomodado tanta gente? • MAZE // MTV Brasil
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Por que Capitã Marvel tem incomodado tanta gente?

Luiz Henrique Oliveira1286 views

Capitã Marvel estreou nos cinemas brasileiros ontem, e a partir de hoje ganha as telas do mundo todo. A produção sedimenta ainda mais o caminho da Marvel Studios no que diz respeito ao seu Universo Cinematográfico. O longa ganhou aclamação crítica, e não à toa: ele é simplesmente sensacional. Entrega o que promete, com bons efeitos visuais, atuações na medida certa e uma heroína fantástica. Então, por que o filme está incomodando tanta gente?

Depois de ver o filme nos cinemas hoje, cheguei a algumas conclusões. Antes de sair de casa, eu li algumas notícias a respeito de como uma legião de homens está negativando Capitã Marvel nos sites de crítica estrangeiros. O argumento usado você vai entender ao ler esse texto até o fim.

 

Capitã Marvel e o reacionarismo no mundo nerd

Não é de hoje que se sabe que o meio nerd está abarrotado de gente conservadora. São pessoas que assistiram e leram Harry Potter ou O Senhor dos Anéis e simplesmente não entenderam a mensagem. Dessa forma, espalham seus preconceitos sob a forma de “opinião” de alguém supostamente entendido do assunto. Claro, pois nerd que se preze sabe até citar trechos desses filmes de cor. No entanto, boa parte dessas pessoas sequer presta atenção nas palavras que J.K. Rowling ou Tolkien escreveram.

No meio dos quadrinhos isso é ainda mais acentuado. Há um tempo, enquanto dava uma olhada na timeline do Twitter, vi uma discussão que me chamou a atenção. O caso era o seguinte: alguns usuários estavam discutindo sobre o fato de X-Men ser, basicamente, uma história sobre minorias que sofrem opressão. De fato, analisando a fundo todo o histórico do time de heróis, é realmente disso que se trata. Porém, esses usuários – invariavelmente usando imagens de personagens fictícios ou qualquer coisa que remeta a eles – diziam que essa era mais uma “tentativa de lacração da esquerda”. Aparentemente, um tema importante tratado com extrema sensibilidade durante anos passou a ser resumido como mera “lacração” – essa palavra irritante usada por quem é reacionário e não suporta algo que possa “ofender” sua moral.

Corta para o nosso momento atual. Capitã Marvel estreou nos cinemas e teve aclamação geral da crítica. No Rotten Tomatoes, por exemplo, o filme até o momento conquistou 79% de aprovação crítica, com certificado Fresh. É um grande feito: outros filmes de super-heróis não tem essa deferência. As coisas mudam quando se olha a opinião do público. Sob qualquer ótica, seria inexplicável um filme tão bom ter apenas 38% de aprovação. As coisas começam a fazer sentido quando se lê os comentários.

 

É proibido ter bom senso

Capitã Marvel tem recebido uma onda de hate por anti-feministas. Por que isso acontece?A negativação se dá por conta de uma campanha feita e liderada por homens, que se sentiram ofendidos com declarações da atriz Brie Larson, protagonista do filme. Ela, que fez questão de defender a posição da mulher como um todo dentro da crítica especializada, teve várias de suas entrevistas para divulgar Capitã Marvel tiradas de contexto por esses caras.

O resultado é isso que estamos vendo: o filme recebendo notas baixíssimas por conta da frustração de uma parcela dos homens que simplesmente não aceitam que uma mulher possa ser empoderada. Larson simplesmente foi sensata e teve uma chuva de hate em cima dela, e consequentemente, em cima do filme. Por conta disso, muita gente pode estar sendo levada a acreditar que Capitã Marvel é um filme feito para “as esquerdas”, essa grande ameaça invisível. Sim, pois os homens reacionários que promovem essa espécie de boicote acreditam piamente em fantasmas inexistentes como o “marxismo cultural”. Supostamente é esse movimento que tem feito com que filmes e séries, representados em seus atores, atrizes, roteiristas e diretores divulguem a tal “agenda liberalista” contra a moral e bons costumes.

Evidentemente, tudo isso não passa de uma enorme besteira.

Em primeiro lugar, as pessoas que julgam um filme sem assisti-lo, baseado apenas em “achismos” divulgados por uma pauta conservadora debilóide, já estão erradas logo de saída. Capitã Marvel é um dos melhores filmes da MCU: equilibra a mensagem com a diversão sem panfletagem. Entretanto, as posições mais feministas de Larson e a origem e desenvolvimento de Carol Danvers dentro de seu arco dramático ferem, de alguma forma a masculinidade dessa gente. Ou, pior: o bom senso acaba sendo algo proibido para essa gente.

 

Uma vergonha gigantesca

Capitã Marvel não é um panfleto feminista. É claro que ele toca no assunto, empodera as mulheres, mas não é só isso. É um filme divertido, são duas horas bem gastas. Toda essa confusão só serviu para mostrar que, dentro do mundinho nerd, existe muito recalque, além de homens mal resolvidos consigo mesmo. Ver uma mulher ganhar destaque sem depender de um homem é ofensivo para eles, e por isso montam essas cruzadas para saciar seu ego minimizado. Chega a ser engraçado que tudo isso aconteça no Dia Internacional da Mulher – é irônico, ao menos.

Sou homem, em teoria não tenho lugar de fala para tratar de feminismo. E não tenho mesmo. No entanto, posso comentar sem problemas sobre a imbecilidade que toma conta da nossa sociedade atualmente. O tal boicote em Capitã Marvel acontece principalmente nos Estados Unidos. Por outro lado, aqui no Brasil tivemos um exemplo recentemente, quando o filme Marighella, dirigido pelo Wagner Moura, teve sua nota derrubada no IMDB. Os detratores acusaram o longa de ser “comunista”, “propaganda vermelha”, “filme de vagabundo”. Detalhe: Marighella não tem nem data para estrear. Foi exibido – com louvor – fora de competição em Cannes. E o fato do filme ter sido aclamado mexeu com os brios dessa gente conservadora e ignorante. A mesma coisa que vemos nessa retaliação infantil ao filme da Marvel.

Resumindo: como cinéfilo, como crítico e como homem, às vezes eu me envergonho de meus pares. No entanto, azar o deles: quem perde de se divertir com filmes de qualidade absurda são eles, que vão se manter dentro de sua casinha ideologicamente miserável por muito tempo.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.