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Não há nada de belo na morte de Hannah Baker

Leonardo Drozino9305 views
13 reasons why mazeblog editorial

Desde a sua estreia há poucas semanas atrás no Netflix, a série 13 Reasons Why se deparou em muita controvérsia. Você já deve saber que Hannah Baker morreu. E provavelmente já deve ter assistido e descoberto as razões que a fez escolher pelo fim de sua vida. 

>> RESENHA | 13 Reasons Why” gera inquietação sobre uma discussão urgente

Nossa sociedade não é aberta para falar sobre suicídio. Só que no caso da série, o problema vai muito além e tanto quanto sua abordagem quanto sua recepção são representações visuais de um grande problema social: o machismo.

A questão levantada em 13 Reasons Why é o poder que nós, seres humanos, temos em mãos. Mais especificamente, o que nós, homens podemos fazer com as mulheres. Como reflexo cultural, o papel da figura masculina exerce notável superioridade em relação ao feminino. Na série, vemos vários exemplos de homens exercendo dominação forçada apenas por que isso – seja de forma velada ou até publicamente exposta – é aceito.

Um entre cada três brasileiros – segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 2016, com base em uma amostra de 3,625 pessoas – acredita que a mulher é culpada em casos de estupro. Ainda na mesma pesquisa, foi revelado que 42% dos homens consultados acreditam que mulheres que se dão ao respeito não sofrem esse tipo de violência. Mais assustadoramente ainda, 30% deles confirmam que mulheres que usam roupas chamativas não devem reclamar desse crime. A pesquisa também revela que 85% das mulheres temem sofrer estupro.

Gráfico extraído de reportagem realizada pelo site Uol.

É muito necessário deixar de lado o ponto de vista individualista e pensar que o problema abordado em 13 Reasons Why vai muito além de um caso isolado. É uma denúncia clara e urgente para um problema social.

Hannah Baker não é a única mulher a passar por isso. É comum, muito comum. Até de mais. E a exposição disso não foi nem um pouco bem recebida. As figuras masculinas na série são retratadas através de personagens que são carregados de prestígio e de atenção por seus admiradores, mas quando seus papéis sociais como dominantes são colocados à prova, reagem com ódio e violência – tentando a qualquer custo e sem limites algum, restabelecer a sua posição.

A controvérsia dada como feedback pela audiência da série é um reflexo de como o problema é sério. A questão do machismo é pouco levantada tanto pelos apreciadores da história, tanto quanto pelos que se posicionaram negativamente. Em todo momento, nas redes sociais – inundadas por textos e postagens sobre – é possível ver que há uma quase que desesperadora necessidade  das pessoas em classificar o seriado como drama adolescente supérfluo e inútil.

Essas opiniões são apenas uma variação da constante tentativa de diminuir a credibilidade e desacreditar o discurso de uma mulher, quando com pouca frequência conseguem obter coragem para tornar públicos os abusos que sofrem.

Katherine Langford, como Hannah Baker em “13 Reasons Why”. Divulgação: Netflix

Após cometer suicídio, a sanidade de Hannah  Baker é posta em questionamento. É também uma ferramenta muito comum chamar de ‘’louca’’ mulheres que não aceitam serem subjugadas. Hannah demonstrava na série evidente indignação com seus colegas do sexo masculino que pareciam achar terem passe livre para fazerem o que quiser com o seu corpo. Para ela não estava ok, não era aceitável todos ficarem olhando para a sua bunda. E muitos a tocando sem sua autorização. Ela estava certa em não aceitar esse tipo de comportamento. Infelizmente, sua indignação deu espaço para um sentimento de falta de esperança. Ela não era louca.

Um exemplo real é o caso da ex-BBB Ana Paula Renault, participante da edição de 2016 do reality show. Ela foi taxada de louca e histérica nas redes sociais após acusar seu colega de confinamento, Laércio de Moura, tomando por base seu comportamento na casa e coisas ditas. Posteriormente o ex-BBB foi finalmente preso pelos crimes de estupro de vulnerável e fornecimento de bebida alcoólica para menores de idade.

Ex-BBB Ana Paula Renault. Reprodução: Twitter

Sobre a reação online em relação à denúncia, Ana Paula comentou em entrevista:

Muitos são taxados de loucos por exprimirem sua opinião, por denunciarem um abuso, agressão. Loucos são aqueles que não querem enxergar, que deixam as vítimas ainda mais acuadas e agem de forma preconceituosa. Não a culpabilização da vítima de abuso sexual. Onde já se viu perguntar para uma vítima de abuso com qual roupa estava, que esmalte usava?! Não, não temos culpa. A culpabiização da vítima é um tabu que coloca milhares de mulheres com vergonha da própria condição, impedindo-as de terem a assistência necessária“.

Assim como a protagonista da série, mulheres ao redor do mundo não se sentem confortáveis e seguras para falarem das coisas que acontecem com elas. Quando se é praticamente possível dizer que a violência sexual é aceitável, é justificável entender por que o número de denúncias seja tão baixo. No caso de Hannah, a única saída que ela encontrou foi por o fim em sua vida.

A sua morte não foi banal. Não foi tratada como uma estatística. O suicídio é utilizado como uma ferramenta para retratar a consequência emocional das constantes violências que sofreu no curto período de sua vida, retratado ao longo dos treze episódios.

Não há nada de belo na morte de Hannah Baker. A romantização, tão falada nas redes sociais, passa muito longe aqui. O suicídio é mostrado, da forma mais visceral possível. Seu corpo sem vida é encontrado pelos seus pais. Não há beleza nisso. Não é um exemplo a ser seguido. Hannah desiste do amor, da felicidade, da vida. Não há nada de positivo ou de feliz com a morte de uma garota.

Divulgação: Netflix

Hannah Baker, sim, era depressiva. E ninguém sabia disso. Certamente o maior serviço que a série pode oferecer é “dar visão” para as pessoas. Da mesma forma que torna o machismo uma coisa tão óbvia e abre os olhos do espectador para perceber isso na vida real, ela atenta para o fato de como nossa sociedade é cega para questões relacionadas com a nossa saúde mental. Hannah dá todos os sinais de que algo está acontecendo, mas ninguém é capaz de ver. E sua morte choca, pois se uma garota tão bela como ela, de vida boa e que parecia estar tudo bem, sofre com isso, quem dirá outras pessoas?

Pessoas sofrem com depressão, estresse e transtornos decorrentes das atividades do cotidiano e talvez nem saibam de que há algo errado consigo – visto que nas poucas vezes que esses problemas são tirados da caixa, são colocados como questões em uma visão individualista, casos isolados – não como um problema público.  Responsabilizar o indivíduo é apenas fácil, não a solução.

Segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, diariamente 32 brasileiros tiram a própria vida. É estimado que ao redor do mundo, um suicídio ocorra a 40 segundos. É necessário com frequência trazer o assunto a público. O suicídio pode ser prevenido. É necessário estimular uma comoção coletiva para a conscientização da existência desse problema e pela compreensão dos sinais. É preciso ensinar a ver antes, não só depois que o pior já aconteceu.

13 Reasons Why causou uma sensação de comoção em escala global para a constatação de muitas pessoas de que elas estavam sofrendo coisas parecidas com que a protagonista estava vivendo. Falar sobre machismo não causa machismo. Falar sobre suicídio não causa suicídio. O silêncio em relação a diversos problemas sociais é o que os transformam em tabu e impede com que discussões sejam levantadas e soluções sejam buscadas. São feridas, que continuam constantemente a doer, mas precisam ser cutucadas para que possam um dia cicatrizar.

Com a fala é possível obter esclarecimentos. É possível constatar quando algo não está certo. Enquanto houver algo de errado. Fale. Escancare. Torne público. Denuncie.

Busque ajuda

O contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) aumentou em 445% com e-mails pedindo ajuda. O número de visitas ao site cresceu 170% após a estreia da série. Caso deseje obter mais informações ou entrar em contato, visite o site da organização.

Leonardo Drozino
Escritor, redator do MAZE e cupido nas horas vagas.