As referências e conexões de "Fragmentado" • MAZE // MTV Brasil
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As referências e conexões de “Fragmentado”

Luiz Henrique Oliveira18477 views

ATENÇÃO: esse texto contém spoilers de “Fragmentado”. Portanto, pense bem se quer continuar com a leitura caso você ainda não tenha visto o filme.

Muitas pessoas assistiram ao novo filme do M. Night Shyamalan, Fragmentado, e ficaram sem entender direito o que foi aquele final. A última meia hora do filme deixou muita gente confusa, e principalmente os seus segundos finais botaram um enorme ponto de interrogação na cabeça do grande público. Esse texto tem como objetivo esclarecer algumas coisinhas a respeito do ato final, e porque é importante conhecer a obra anterior do diretor para compreender o que se passa.

Antes de qualquer coisa, é bom esclarecer que o longa dividiu muita gente, mesmo aqueles que entenderam logo de cara as referências que surgiram na tela. Há quem diga que esse é o melhor filme de Shyamalan desde “Sinais” (aquele com Mel Gibson enfrentando alienígenas na fazenda), mas há também a opinião crítica de que o longa é mais um passo do diretor rumo ao fundo do poço – no qual ele está desde que roteirizou e dirigiu um dos piores filmes dos últimos anos, “Fim dos Tempos”. O texto a seguir não tem a intenção de fazer uma crítica do filme em si; nesse espaço vamos discutir como Shyamalan quer fazer seu próprio “Universo Expandido”.

>> RESENHA | James McAvoy rouba a cena em “Fragmentado”

Os últimos segundos de “Fragmentado” mostram um diálogo aparentemente inofensivo numa lanchonete. Duas pessoas discutem sobre Kevin, foragido por conta do sequestro de três garotas e pela morte de duas delas, mais o assassinato da psiquiatra que era responsável pelo seu caso. Eis que aparece o seguinte diálogo:

“Já não tivemos um maníaco estranho como esse há alguns anos? Como era o nome dele?”

Para surpresa geral, surge Bruce Willis, respondendo:

“Era o Senhor Vidro”.

Foi aí que muita gente se perdeu. Willis aparece com uma camiseta escrito Kevin Dunn. Mas quem diabos é Kevin Dunn?

Depois do imenso sucesso de “O Sexto Sentido”, M. Night Shyamalan lançou seu projeto seguinte, “Corpo Fechado”. Nesse filme, Bruce Willis é um homem que sobrevive a um acidente de trem sem nenhum arranhão, enquanto todos os outros passageiros morrem. Esse fato chama a atenção de Elijah, interpretado por Samuel L. Jackson, que sofre de uma doença que é conhecida como “Ossos de Vidro”: o menor contato pode lhe causar fraturas graves. Entretanto, Elijah é um doido que acredita que o personagem de Willis é um super-herói com poderes indestrutíveis, e que ele, portanto, o vilão destinado a ser o seu oposto. E como se chamava o personagem de Willis nesse filme?

É isso mesmo: Kevin Dunn. O mesmo que surge no fim de “Fragmentado”.

Dá-se a impressão de que, em um próximo filme, Elijah e “A Fera” irão se unir de alguma forma? Ou será que Kevin Dunn será o responsável por contê-lo numa inevitável sequência?

O fato é que Shyamalan há tempos fala em fazer uma continuação de “Corpo Fechado”, que só não teve sua produção iniciada porque o diretor caiu em desgraça com filmes horríveis como “Depois da Terra”, “O Último Mestre do Ar”, “A Visita” e outros etc. O diretor também é conhecido por ter um ego maior que o Sistema Solar, então não é de se espantar que ele tenha a pretensão de fazer seu próprio universo cinematográfico, à exemplo da Marvel. E recentemente, em uma entrevista, ele comentou sobre dar sequência a história de Dunn:

“Eu amo esses personagens e esse universo. O mundo inteiro faz filmes de quadrinhos agora. Na época, era algo completamente novo. Me lembro que, na época em que fiz o filme, a Disney disse, ‘Histórias em quadrinhos?! Não há mercado para quadrinhos!’. Mas isso é tudo o que eles fazem agora! Foi uma conversa hilariante. Eu disse a eles, ‘Talvez tenham razão. Talvez ninguém irá ver filmes de quadrinhos’. Eles responderam, ‘São as pessoas que vão a pequenas convenções que gostam de histórias em quadrinhos’. Mas eu retruquei, ‘Eu gosto de histórias em quadrinhos!’”.

Mais referências!

Aparentemente, “Fragmentado” não se liga só a “Corpo Fechado”. De forma não-literal, se liga a outros filmes do mesmo diretor, a começar pelo óbvio: todos os filmes dirigidos por ele (com exceção de “Depois da Terra” e “O Último Mestre do Ar”, filmes de aluguel que ele aceitou produzir na época de baixa na carreira) se passam no estado da Pensylvania, nos arredores de Filadelfia. Seria muito fácil unir todas as histórias por elas se passarem no mesmo lugar. E há dicas visuais que remetem aos outros trabalhos. Só pra deixar como exemplo, veja uma cena que lembra e muito a rua da casa de Cole, o menininho que vê pessoas mortas em “O Sexto Sentido”:

Meio familiar, não?

Também poderia citar outras formas de conexão, como as cenas de flashback que mostram a personagem Casey ainda criança com o tio na floresta – cenário que remete muito a “A Vila”, outro sucesso de Shyamalan. Mas o principal é mostrar que, em seus segundos finais, “Fragmentado” se torna uma espécie de preparação para o retorno de Kevin Dunn e talvez, do Senhor Vidro, mostrados em “Corpo Fechado”. Pode ser uma boa ideia, pois este foi o último filme realmente criativo realizado pelo diretor; a partir daí, como já mencionado, seu ego inflado pela mídia acabou gerando histórias absurdas que chegou ao seu ponto mais baixo com “Fim dos Tempos”.

Quem sabe, com “Fragmentado” e um possível “Corpo Fechado 2”, Shyamalan reencontre o seu eixo e passe a contar boas histórias com plot twists tão inventivos quanto aqueles que ele criava em seu passado. Mas que é uma enorme presunção achar que pode criar seu próprio universo cinematográfico, isso é. Vamos esperar para ver.

Mas é bom lembrar uma frase que Elijah Wood, o “Senhor Vidro”, sempre diz: “Estamos conectados”.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.