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ENTREVISTA | Criolo fala sobre samba e outras inspirações para o álbum “Espiral de Ilusão”

João Batista1531 views

Nativo da Zona Sul de São Paulo, Criolo vem se destacando cada vez mais no cenário musical brasileiro. Considerado recentemente pela revista Rolling Stone como “o rapper mais sensível do Brasil”, ele lançou no final do mês passado o seu mais novo disco, “Espiral de Ilusão”, que sucede o muito bem recebido e sucedido relançamento de “Ainda Há Tempo” lançado em maio do ano passado.

Quem acompanha sua carreira, sabe que apesar de não brincar em serviço quando o assunto é rap, ele também não vê problema algum em arriscar outros estilos. E “Espiral de Ilusão” é uma prova maestral disso: de uma forma inédita em sua discografia, Criolo se jogou com tudo em várias nuances do samba e entregou um material coeso e profundo que só reforça sua competência e versatilidade artística.

Aproveitando o lançamento, o blog conseguiu uma entrevista exclusiva com o cantor, que falou sobre suas inspirações para o novo disco, paixão pelo samba e outros fatores do processo criativo de “Espiral de Ilusão”.

MAZE ENTREVISTA: CRIOLO
por Matheus Barcelos

A sua ligação com o samba não é de todo uma novidade, entretanto, qual foi o seu critério para lançar um disco dedicado ao samba nos dias de hoje? Por que o Samba é necessário?

O Samba faz parte da cultura brasileira, está impregnada no DNA dos brasileiros, e comigo não é diferente. O Samba veio pra mim através do meu pai, e estava presente na vida dos nossos vizinhos, nosso bairro, nosso cotidiano. [A ideia de] escrever Samba veio de muito tempo atrás, ficou guardado no coração, e sempre que podia matava essa saudade e desejo gravando um Samba de vez em quando. Esse sentimento vem das coisas que eu estava passando e vivendo, o meu jeito de respirar, o meu jeito de não morrer junto se transmite de uma maneira, e dessa vez foi através do Samba. Então só me permiti não brecar isso e deixar desaguar sem ter que ficar direcionando.

“Menino Mimado” é uma canção que já tem uns 5 anos, acho. Muitas canções nasceram agora de uns 4 ou 2 meses atrás. Quando tenho alguma coisa na cabeça já chamo o Rabelo [compositor] e ele já vem pra eu cantar pra ele, fazendo um freestlye ali. É deixar o momento e a emoção correr naturalmente. Eu tinha escrito vários Sambas um tempo atrás e isso ficou guardado. E agora recentemente veio pra mim o sentimento e vieram muitos Sambas, 15, 20, 30, e eu dividi isso com as pessoas com quem trabalho, dizendo “Olha só, eu fiz esse Samba aqui, o que acha?”. Foi um número muito grande em um pouquíssimo espaço de tempo, então essa energia naturalmente tomou as pessoas que trabalham comigo, que vejo no dia a dia e que estão ao meu redor, e elas disseram: “acho que esse é o momento”.

Você acredita que um disco movido pelo samba se torna de maior alcance das massas?

Pode ser que sim. O Samba é um estilo musical feito por pessoas. As pessoas descrevem seus sentimentos através de expressões artísticas, e no Brasil o Samba é uma das formas de expressão mais acessíveis, digamos. Está presente na vida de muita gente, como esteve presente comigo minha vida toda. Mas hoje em dia há vários estilos de música, e na era da internet estão todas mais acessíveis.

“[A ideia de] escrever Samba veio de muito tempo atrás, ficou guardado no coração, e sempre que podia matava essa saudade e desejo gravando um Samba de vez em quando.” – Criolo

O seu disco novo passeia por diversos estilos diferentes dentro do samba. Por vezes, é notável a semelhança com grandes nomes como Cartola e Adoniran Barbosa. Quais os outros artistas que te inspiram nesse trabalho?

Eu nem sei falar o nome dos Sambas, o que é Samba de que, de onde veio… Mas eu sei o que eu sinto, e eu estou nessa busca da vida da gente se entender. O que eu sinto eu vivencio, tanto que eu nem sei dizer, e depois gravando que rolou e eles [a equipe] me disseram “Isso aqui você fez um Samba canção”. Samba de breque eu sei o que é, claro, por causa de vivência do meu pai que é fã do Moreira da Silva, que todo mundo sabe é professor da matéria. Alguns anos atrás tive a oportunidade de cantar um Samba no álbum de inéditas no disco do Adoniran Barbosa, que foi uma experiência fantástica. O Marcos Preto tinha falado pra mim que ele estava fazendo um disco novo, e que ele queria escutar uma coisa minha também. Ele me passou o telefone dele, nos falamos, mandei duas coisas pra ele e ele gostou e acabou, muito pra minha felicidade, colocando no disco esse Samba. Tive a felicidade de poder cantar no Prêmio da Música Brasileira, depois tive a oportunidade de cantar com o Riachão, participei do disco do Martinho da Vila… Então o pessoal foi me convidando.

Em “Cria de Favela”, você – de forma brilhante – insere o ritmo nordestino em fatos totalmente atuais do nosso país, como, por exemplo, a delação premiada. Como funciona esse processo criativo de absorver a realidade na sua arte?

Uma reunião de pessoas para celebrar algo é, no mínimo, um ambiente de comunhão respeito e solidariedade.  Pessoas se reúnem com suas ideias, sonhos e energia. Isso vale tanto pra vida real quanto pra arte. E eu acredito que a cultura tem um papel na formação da realidade. A cultura e essa construção de pensamento e ação, tudo junto ou uma coisa de cada vez que se faz presente nesse nosso dia a dia.  A intenção de cada um é que faz a diferença.  Se uns acham que sim, então sim. Se a construção é de NÃOS, aí é lembrar que tudo deixa um legado e que a reverberação de nossa existência vai além de nosso egoísmo.

Pra finalizar: nos tempos de hoje, mesmo que exista tanta gente apaixonada por arte em geral, ela ainda segue bastante banalizada até mesmo menosprezada por boa parte da sociedade. Que mensagem você pode deixar, em especial, para as pessoas que vivem ou querem viver de música, teatro, cinema, etc.?

A música é um tanto do que você nela põe, assim como em tudo na vida tem sua marca, seu gesto e seu traço. É a mesma coisa com qualquer forma de arte, seja teatro, filme, e por aí vai. Os arte-educadores e os professores transformam vidas, assim como a música, que também tem este sublime. Dos dois sou aluno. Uma pessoa que entra nesse ramo será um educador, de uma forma, então acho importante não só transmitir isso para o público, mas o próprio artista tem que transmitir para si mesmo. E tem que ser real, tem que vir de dentro.


O disco “Espiral de Ilusão” está disponível em formato físico, digital e streaming. Você pode ouvir abaixo pelo player do Spotify:

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.