Editorial: Por que as pessoas se chocaram tanto com a Björk tocando funk? • MAZE // MTV Brasil
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Editorial: Por que as pessoas se chocaram tanto com a Björk tocando funk?

Leonardo Drozino12 comments2565 views

O título do post pode parecer um tanto inusitado, mas se analisarmos bem de quem estamos falando, isso não seria uma grande surpresa. A pioneira no ramo da música, Björk já fez clipes à frente de seu tempo, protestou contra governantes ditadores em seus shows, inovou ao lançar no mercado o primeiro álbum-aplicativo, e recentemente abriu seu coração em um álbum sobre o divórcio com seu marido, cuja nossa análise pode ser lida aqui.

E dessa vez, sem aviso prévio compareceu à uma festa de de comemoração aos cinco anos da gravadora TriAngle Records onde apresentou um set eclético e animado, onde incluiu a canção “Sabe que Dia é Hoje (Semana Maluca)” do MC Brinquedo e MC 7belo.

O momento pode ser visto aos 25 segundos do vídeo abaixo:

O fato curioso rendeu opiniões polarizadas. Muitos se divertiram com a situação, afinal, uma artista internacional já viu tocando música brasileira? E ainda por cima um funk carioca proibidão, que ela se quer deve saber o que está sendo dito? Mas conhecendo a artista, ela provavelmente não se importaria.

E muitos não viram o fato com bons olhos. Afinal, o “proibidão-infantil”, como é chamado o funk com letras erotizadas cantado por crianças, é algo polêmico e difícil de compreender. Ainda mais que se pensar um pouco, podemos perceber que essas crianças estão sendo manipuladas por pais ou responsáveis a agirem dessa maneira.

Mas colocando um pouco de lado a sexualização das letras dos funkeiros mirins, a marginalização do funk brasileiro é evidenciada. Assim como o hip hop, não possui limites para expressão, e seus autores utilizam-se dessa liberdade para mostrar ao mundo a sua realidade. É através da música, com esses versos fortes e marcantes, que eles tem voz. A chance deles de mostrarem que eles existem, que são parte importantíssima da nossa eclética cultura brasileira. Mas o preconceito à sua manifestação é quase como uma tentativa aterrorizante de fazê-los se calarem. 

Talvez nem se a artista tivesse tocado funks mais “leves” essa rejeição deixaria de ser vista. É só lembrar como foi quando a cantora Valesca Popozuda lançou o single “Beijinho No Ombro”. Apesar de ter se tornado um hit na boca do povo, era óbvio que o preconceito ao funk estava longe de se derreter, devida a uma grande repulsa e resistência à aceitação por parte da nossa sociedade. Afinal de contas, o estilo é frequentemente associado de forma pejorativa à “favelas”, “negros” e “pobres”, devido às suas origens nas periferias cariocas, ao longo das últimas décadas. O mais aterrorizante disso tudo, é que o ato de “ouvir música funk” é visto como “humilhante” por pessoas que dizem ter um gosto musical mais “refinado”.

Vivemos (ainda bem) em uma democracia, apesar dos apelos infundados de intervenção militar por parte de muita gente. Então é claro que ninguém é obrigado a gostar de nada e nem a concordar com uma palavra se quer do que foi escrito aqui. Mas chegou-se a um ponto que não é mais possível distinguir o ato de “desgostar” do preconceito explícito. Há muito deixou de ser uma questão de preferência musical para ser uma prática de repudio quase automática à ideia pré-concebida de que funkeiro é sinônimo de ladrão. Como se classe social, condições financeiras e cor da pele fossem coisas para se envergonhar. Ainda mais que essas pessoas podem ter caráter tão bom ou até melhor do que quem as julga inferiores por não se encaixarem nos seus padrões sociais.

São incontáveis as vezes que vi pessoas distribuindo gratuitamente desprezo usando argumentos infantis do tipo “escuto rock, sou melhor do que quem ouve funk” – muitas vezes com essas exatas palavras ou variações semelhantes, mudando apenas o “rock” para qualquer outro estilo musical visto como mais conceituado. Como se qualquer outro estilo e gênero musical fosse sinônimo de cultura e o funk não. 

Daí vem do nada uma mulher que é “Rainha dos indies, cults e referência no que é música boa” e toca aquilo lá que você repudia. De repente seu chão desaparece. Por que ela fez isso? Ela está louca? Isso só pode ser montagem. Por favor, me diga que isso não é real. Não consigo aceitar.

Isso é seu preconceito falando. Pois ela apenas ouviu a música. As batidas, as melodias. Ela sentiu a energia. A música quando é ouvida de mente aberta, vai tocar sua alma. Não importa qual seja. Não importa quem fez. Não importa qual o seu gênero e estilo musical. E ela colocou essa canção do MC Brinquedo e MC 7Belo no seu set, e estava se divertindo muito com isso. Dançou, bateu muito cabelo, riu, se divertiu. Sem preconceito nenhum, deixou a energia tomar conta de sua alma.

A música é universal, feita de humanos para humanos. Feita para quem quer ouvir. Feita para quem quer sentir. Muitas vezes, você já cantou músicas em outros idiomas em que não possui nenhum conhecimento dos versos das canções. E acredite, você pode ter ouvido coisa muito “pior” do que é dito nos funks “proibidões” brasileiros. Você já prestou atenção nos versos de “Anaconda”, da Nicki Minaj? Ou até mesmo “Partition” da Beyoncé? É bem provável que você as tenha endeusado e idolatrado em algum momento em que menosprezava o chamado “proibidão” do funk, sendo que entre elas não tem há lá muitas diferenças. É provável também que você as tenha criticado devido ao seu  linguajar e teor sexual. Mas os palavrões e sexualidade fazem parte da natureza humana. Vão continuar existindo quer você queira ou não esconder. Então para que se reprimir, quando você simplesmente pode seguir o exemplo da Björk e se deixar levar pelo ritmo?

E acredite, não há nada de errado com isso.


A artista divulgou em seu Soundcloud o set tocado na festa, que além de Mc Brinquedo e MC 7Belo, inclui nomes poderosos como o da britânica Kate Bush, Death Grips e The Haxan Cloak, que contribuiu na produção de algumas faixas de seu mais recente álbum, Vulnicura. Escute abaixo:

Leonardo Drozino
Escritor, redator do MAZE e cupido nas horas vagas.