Review: O coração partido de Björk em "Vulnicura", seu novo álbum • MAZE // MTV Brasil
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Review: O coração partido de Björk em “Vulnicura”, seu novo álbum

Leonardo Drozino4 comments4299 views

O início da composição das canções do “Vulnicura”, nono álbum de estúdio da cantora islandesa Björk teve início no final de 2012, durante e após a massiva divulgação do álbum audiovisual “Biophilia”, de 2011, que marcou a indústria musical por ser o primeiro disco lançado em formato “álbum-aplicativo”, em uma estratégia inovadora da pioneira artista em experimentar a música através de instrumentos musicais criados especialmente para a produção do disco, apresentações ao vivo e projetos educacionais.

Depois dessa mais que bem sucedida aventura da musicista, era de se esperar que as expectativas para seu novo álbum fossem muito altas, com muita antecipação gerada pela mídia ao longo dos anos em que a produção do mesmo foi mantida em segredo. Logo no final de 2014 os mistérios foram sendo esclarecidos, como a revelação da participação do produtor Arca no disco e anúncios de vários shows ao longo do ano – o que gerou uma ansiedade ainda maior para o que estava por vir -, seguido por um vazamento em baixa qualidade das canções e de um súbito lançamento das mesmas no iTunes dias depois de caírem na internet.

Logo nas primeiras audições do álbum em baixa qualidade e finalmente na sua versão final e legalmente distribuída, o ouvinte se depara mais uma vez, como de praxe na carreira da cantora, com um álbum único e surpreendente. Os temas ao longo das canções tratam do fim de seu relacionamento com o também artista Matthew Barney, e descrito pela própria em entrevista como “um processo de cura, através de diálogos que nós dois poderíamos ter tido em nossas mentes e corações”. Em síntese, o álbum é sobre um tema clichê: coração partido. Porém, não é tão simples como parece, não é um coração partido “comum”. É o de uma mulher que há mais de 20 anos vem marcando a indústria da música, fazendo de qualquer coisa que ela deseja discorrer, algo épico. Obviamente com “Vulnicura”, isso não seria diferente.

 O disco conceitual, sobre o coração partido da musicista é dividido em três partes: “antes”, “depois” e a “cura”, assim como descrito no encarte do álbum. Porém, é curioso notar que apesar dos antecedentes de cada faixa estarem descritos em cada uma das partes citadas anteriormente, o álbum é construído por cima de apenas três elementos: cordas, vocais e batidas, que simbolicamente estão relacionadas com o decorrer linear da forma como o disco é estruturado.

Ao longo da audição das nove faixas, a primeira coisa que o ouvinte poderá observar é que as cordas orquestradas representam a sensação de “porto seguro” da cantora após passar tantos anos com seu marido e ter construído uma família com ele, e a repentina percepção que de certa forma, tudo eventualmente ia acabar.

É na primeira parte do disco, que inclui a tríade de canções “Stonemilker”, “Lion Song” e “History of Touches”, que encontramos as composições mais angustiantes. Ou talvez nem tão angustiantes assim, mas de certa forma tocantes e surpreendentes por introduzirem uma Björk que nunca foi tão clara e direta em expressar sua vida íntima e privada. Em “Stonemilker” – apontada por fãs, ao lado de “Family” como uma das melhores faixas do disco – a cantora apela “Eu possuo necessidades emocionais/eu queria sincronizar nossos sentimentos”, introduzindo assim a um álbum que soa mais como se fosse seu diário, e as melodias das canções fossem um simbolismo para as páginas rabiscadas, amassadas, rasgadas e marcadas por lágrimas.  Na faixa seguinte, “Lionsong”, podemos notar também certa euforia (muito frequente no decorrer do disco) e desespero nos versos “Esses complexos e abstratos sentimentos/Eu não sei como lidar com eles”, e o início de uma espécie de questionamento de própria identidade como agora, uma mulher solteira, que será introspectivamente mais aprofundado na parte final do disco. A terceira faixa, “History of Touches”, finaliza o trio de canções que se referem ao período antes do término, e também é a mais curta do disco, porém não menos intensa do que as de mais.  A simples canção, que conta com sintetizadores agressivos, que mais lembram pianos tendo suas teclas pressionadas com força e raiva, como é comum em alguns filmes com temática semelhante ao conceito do disco, se conectam  a letra também raivosa enquanto a cantora canta os versos “Acordei no meio da noite para expressar o meu amor para você” enquanto suavemente espécies de ruídos vão surgindo ao londo do desenrolar da canção.

Os vocais da cantora estão definitivamente mais atrativos e melódicos, talvez em consequência da remoção dos nódulos detectados durante os primeiros shows de promoção do “Biophilia”, transmitindo bem a sensação de choque e repentina tristeza e desolação que seguiram após a separação. Chega a ser até surpreendente ouvir tal confidência nas melodias cantadas e a perfeita capacidade de isso resultar no ouvinte sofrendo junto. Por mais depressivos que possam soar as melodias entoadas por sua voz, é inegável que a cantora nunca antes tinha apresentado vocais tão belos e doces em um disco.

Na segunda parte do disco, o conteúdo das composições (todas escritas ou co-escritas pela própria artista) se torna ainda mais vulnerável. “Meu escudo se foi, minha proteção foi tomada”, versos de “Blake Lake”, uma das melhores e a mais longa do disco, com pouco mais de 10 minutos de duração, simbolizam o sentimento característico do término de um relacionamento. “Minha alma foi dilacerada, meu espírito está destruído”, “Meu coração é um enorme lago/Escurecido por uma poção mágica/Se afogando nesse oceano”. O instrumental aparentemente irregular da canção é tão mágico como o significado dos versos citados, chegando a destoar o fôlego por volta de seus quatro minutos quando atinge rapidamente o seu auge, para depois ser perfeitamente finalizada por uma onda de uma das melodias mais belas que já estiveram presente em uma canção da artista. A canção seguinte, “Family”, traduz diretamente através de sintetizadores e batidas (batidas que no qual parecem representar simbolicamente o sentimento encontrado por ela enquanto se descobre curando a sua alma) sombrias e graves a indignação e amargura da cantora: “Existe algum lugar onde eu possa deixar condolências para a morte da minha família?”, antes da faixa mostrar uma quebra abrupta e inesperada aos três minutos dos oito de sua duração, para navegar assim até o fim em uma áurea etérea, com vocais de fundo da cantora flutuando em meio a cordas acústicas e sintetizadas, que rapidamente se conectam com a próxima canção, “Notget”. A faixa fecha o ciclo das canções fortes e ferozes que representam o “depois” do término, e inicia também o processo de cura da cantora, como é explícito nos versos “Se eu me arrependesse de nós dois, estaria negando a minha alma a chance de crescer/Não remova a minha dor, é a minha chance de me curar”.

Na parte final do disco, as canções ainda seguem os moldes das anteriores, porém parecem adquirir um tom introspectivo enquanto os conceitos do que é necessário para se curar da dor do relacionamento recém-terminado são elaborados. É notável também que a velocidade das canções começa a acelerar a partir de “Atom Dance”, dueto com o cantor Antony Hegarty, líder da banda Antony and the Johnsons. A canção chega até a parecer divertida enquanto a cantora canta o verso “Deixe essa horrível ferida respirar” – como visto na capa do álbum -, mas até o final da canção, algumas batidas que parecem com gotas d’água simulam uma espécie de sensação claustrofóbica, enquanto é pronunciado o impactante e final verso “a maioria dos corações possuem medo do próprio lar”.  A penúltima canção da jornada épica da cantora em busca da rendição da dor do fim do seu amor, “Mouth Mantra”, é quase uma continuação direta da faixa anterior, em que a cantora deixa ainda mais clara a sensação da transposição da dor de um coração partido para seu próprio corpo, em que às vezes chega a ser difícil até a respirar, devido à influência da dor. A canção final do disco, “Quicksand”, é a que possui as batidas mais eufóricas, e a sua questão existencial é levantada aos limites nos versos “Quando estou destruída, estou completa/ Quando estou completa, estou destruída”. É interessante notar também, que na metade da canção a cantora transpõe os versos citados para a terceira pessoa, “Quando ela está destruída, ela está completa/Quando ela está completa, ela está destruída”, que curiosamente remetem ao hit “Pagan Poetry” e seu polêmico clipe com os versos “Eu o amo, eu o amo, eu o amo/Ela o ama, ela o ama, ela o ama” em que a cantora expressou na época um desejo de retratar no videoclipe da canção uma “grande história de amor”, e seguindo sugestões do diretor, Nick Knight, ela gravou cenas de sua intimidade com marido, e elas foram posteriormente distorcidas. Infelizmente, em “Quicksand”, o fim dessa grande história de amor foi selado.

Vulnicura” é um álbum exemplar de coerência. É incrível como absolutamente todos os elementos, desde capa, letras, composição de melodias, instrumentação e produção resultaram em um produto homogêneo que realiza em todos os aspectos perfeitamente o conceito principal de sua existência.Novamente, a cantora fez bom uso de sua longa trajetória na música para se render completamente à sua própria vulnerabilidade, dor e intimidade para se livrar dos demônios que a assombram, se curando fazendo o que ela sempre fez de melhor: música de primeiríssima qualidade.

bjork vulnicura nota 10

Leonardo Drozino
Escritor, redator do MAZE e cupido nas horas vagas.