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Na estreia da turnê “Espiral de Ilusão”, Criolo lava a alma e contagia o público

Gustavo Mata618 views

“Assistir um show do Criolo, pra mim, é lavar a alma”

Essa foi uma das primeiras coisas que ouvi ao chegar no Citibank Hall na noite do último dia 24, um sábado frio e com cara de chuva. Criolo subiu ao palco às 22h45 para cantar as músicas do seu mais novo disco e o primeiro de samba de sua carreira, “Espiral de Ilusão”.

Durante uma hora e meia de espetáculo, o artista foi fundo nas raízes de um dos gêneros que mais o influenciaram. Além de revisitar seus trabalhos antigos, com canções dos discos Nó na Orelha e Convoque seu Buda, Criolo fez do seu repertório uma homenagem aos artistas que moldaram sua arte, entre eles Cartola e o seu colaborador Ricardo Rabelo.

O show se iniciou com “Nas Águas”, uma das músicas mais emblemáticas do Espiral da Ilusão. A energia do cantor contagiou o público, que logo pegou o refrão da canção e cantou junto até o fim. Talvez tenha sido motivo para Criolo cantar a música uma segunda vez, no finzinho do espetáculo, o que levou a galera mais uma vez à loucura e deu voz a uma plateia agitada e contagiada.

Para quem já teve o prazer de ver o artista anteriormente, o tom de “Espiral da Ilusão” pode parecer até mais calmo e, em algum momento, pode-se pensar que Criolo está contido. Durante as várias conversas com o público, como de costume, o artista fez inúmeras críticas à sociedade, ao racismo e, claro, não deixou seu tom político de lado. Durante o show da Virada Cultural de 2016, em São Paulo, ele se apresentou em frente a um telão com FORA TEMER piscante e colorido, no Citibank Hall o artista foi sublime e, quando foi dada a brecha para sua crítica ao atual presidente, entoou a incrível “Menino Mimado”, em que alfineta Michel Temer sem pudores.

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E nessa onda de diálogos, discursos e uma verdadeira lição dada ao público, Criolo mostrou que sua nova turnê é, também, uma ode ao amor. Seu disco fala sobre desilusões, amores e paixões, como a divertida “Filha do Maneco”, em que canta sobre a paixão pela filha do dono do boteco, e a faixa-título, em que pede em tom melancólico que seu amor o esqueça. E no meio disso tudo, sobrou espaço, inclusive, para uma aula de respeito à diversidade e ao amor homoafetivo, pois, nas palavras do cantor, “não faz diferença se é mulher com homem, mulher com mulher, homem com mulher, o que importa é se existe amor”. O público, mais uma vez, foi à loucura.

Na passagem do concerto, Criolo entoou “Juízo Final”, de Nelson Rodrigues, com a maestria que só um veterano no mundo da música faria. A desenvoltura em assumir uma postura completamente nova nos palcos é digna de aplausos, aplausos esses que foram ouvidos por longos minutos após o fim do espetáculo. Isso porque, depois de mais de uma década no mundo do rap e hip-hop, essa é a primeira vez que Criolo se aventura em uma turnê sem Dan Dan, seu parceiro de longa data com quem dividia palco e o estúdio. Dessa vez, o intérprete de “Linha de Frente” veio acompanhado de grandes sambistas do extremo sul da cidade de São Paulo, mostrando que muitas vezes grandes almas talentosas estão apenas escondidas. Além disso, o trio de cantoras/atrizes Clarianas dividem o palco com o cantor diversas vezes e dão um tom ainda mais incrível ao show, com suas vozes poderosas e os sorrisos contagiantes.

No fim, o que se tira do show é que Criolo é, sem dúvidas, um dos grandes artistas nacionais contemporâneos. Seja apoiado em seu próprio repertório, seja enaltecendo o trabalho de artistas que marcaram o samba, o cara mostra que independente do estilo, seu talento e dedicação prevalecem. “Espiral da Ilusão” é um show para ser visto e revisto, uma experiência única que, no fim, faz jus à frase que ouvi ao chegar ao espetáculo: saí dali de alma lavada.


O disco “Espiral de Ilusão” está disponível em formato físico, digital e streaming. Você pode ouvir abaixo pelo player do Spotify:

Gustavo Mata
Aspirante a escritor e amante da cultura pop, viciado em séries, filmes ruins e Britney Spears.