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RESENHA | Explosivo, “Coringa” é um dos filmes do ano

Luiz Henrique Oliveira12857 views
RESENHA | Explosivo, "Coringa" é um dos filmes do ano

“Coringa” chegou com uma carga de hype gigantesca. A espera pelo filme parecia infinita: desde o lançamento de seus trailers o público aguardou ansiosamente. Isso porque desde cedo o filme prometia ser um dos melhores do ano. Cumpriu e entregou: o longa é arrasador.

Veja a crítica em vídeo, sem spoilers:

A produção, dirigida e co-escrita por Todd Philips, reimagina o personagem clássico da DC Comics, que já foi interpretado de Jack Nicholson a Jared Leto. Passando, claro, por Heath Ledger, detentor – até então – da melhor personificação do tortuoso Coringa. Sem contar Cesar Romero, da TV.

Agora, Joaquin Phoenix aparece roubando a cena, devorando o cenário e todos os outros atores à sua volta. Até mesmo veteranos como Robert De Niro, que voltou a atuar bem depois de anos no piloto automático, é eclipsado pela força de sua interpretação. Parecia impossível, mas Ledger perdeu a primazia de ser o melhor intérprete do palhaço até aqui.

Isso só foi possível porque os roteiristas não seguiram o cânone do personagem, conforme o conhecemos das outras encarnações. Ao invés do tanque de ácido deixando um criminoso ainda mais sádico, temos algo mais calcado na vida real. Arthur Fleck – este é o nome do personagem de Phoenix, já que o Coringa nunca teve um nome para chamar de seu até agora – trabalha como palhaço em uma Gothan City tomada por ratos e pela violência.

Ele tem problemas psicológicos graves, não consegue se encontrar em um mundo cada vez mais perverso e sente-se como uma pessoa invisível, para quem a sociedade não dá a mínima. Ele vive miseravelmente em um apartamento pequeno e sujo, cuidando de sua mãe, com quem tem uma relação de dependência mútua.

Evidentemente, tudo isso muda quando Fleck tem um dia perfeitamente ruim. Aí é que o filme deslancha.

 

“Coringa” e a tempestade da mente

ANÁLISE | Coringa realmente estimula a violência ou é apenas um exagero?“Coringa” percorre a tempestade da mente de Arthur Fleck com precisão cirúrgica. O diretor Phillips mantém o controle visual da narrativa de forma exemplar, já que o filme não apresenta “gorduras” nesse sentido. Ou seja, não há pontas soltas que façam com que o personagem saia do escopo cuidadosamente preparado para contar sua história. Vemos, cada vez mais embasbacados, os diversos problemas da vida miserável que Fleck leva.

O cuidado com sua mãe doente. A única alegria em assistir ao talk show de Murray Frankin (Robert De Niro). O trabalho onde é humilhado e incompreendido. O transtorno que faz com que ele dispare em risos mesmo quando está triste. Tudo isso faz com que nós, quando finalmente ele chega ao seu limite, compreendamos seus motivos – mesmo que eles sejam irresponsáveis, inconsequentes. O resultado, como não poderia deixar de ser, é trágico. Em todos os sentidos.

A tristeza da vida de Fleck é brilhantemente interpretada por Phoenix. O ator nasceu para este papel. Os menores trejeitos do sujeito parecem naturais, como se sempre estivessem ali. O andar torto com a cabeça meio caída para o lado é uma clara homenagem à interpretação de Heath Ledger, que definiu os parâmetros para o personagem em 2008. É, provavelmente, o melhor trabalho de um ator que já entregou performances geniais como Johnny Cash em Johnny e June, o imperador em Gladiador, o homem atormentado que se ancora na Cientologia em O Mestre.

 

Mensagem tortuosa

E, mais importante, o roteiro de “Coringa” traz para a tela o drama das pessoas que se sentem rejeitadas pela sociedade em geral. Num determinado momento, Fleck escreve em seu diário:

“A pior parte de se ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse.”

Isso resume o que o filme quer dizer. Levados ao limite, as pessoas que possuem esses problemas podem tomar atitudes drásticas, quando não possuem ajuda ou são interpretados como pessoas sem voz. O esforço de Fleck em tentar manter sua sanidade se esvai quando os políticos – sempre eles – cortam os medicamentos e as sessões com a assistente social, que serviam como únicas âncoras do sujeito para não sucumbir completamente à loucura.

Por outro lado, o mesmo roteiro parece perdido na mensagem que realmente quer passar. Há duas versões que lutam para definir a história de “Coringa”. A primeira prega que a anarquia é a resposta para reconstruir a sociedade que cada vez mais degrada seus cidadãos. A segunda nos diz que o discurso de “matem os ricos!” leva apenas a constatar que a destruição da organização da sociedade como a conhecemos é uma tragédia muito maior.

No fim das contas, ficará para o espectador definir qual é a versão mais correta para o final do filme. “Coringa” permite que nós possamos dar a nossa própria interpretação para o que acabamos de assistir. Isso pode ser um perigo, como já dissemos aqui neste artigo. No entanto, o longa também escancara que, sempre que há uma crise, os poderosos fazem questão de jogar o custo nas costas de quem mais precisa de ajuda. A mídia, que deveria ter um papel mais combativo, explora essas mesmas pessoas. Os ricos e políticos pensam apenas em si mesmos – e nas próximas eleições.

 

Ainda assim, um filme sensacional

Mesmo com tudo isso, “Coringa” é o tipo de filme que, inspirado na Nova Hollywood dos anos 70, nos traz um estudo de personagem maravilhoso e cheio de nuances. O filme joga na nossa cara que, se não nos cuidarmos, nos tornaremos a Gothan City que tanto nos enoja: suja, sem cor, sem brilho, sem nada. Apenas pessoas vazias tentando encontrar um sentido em suas existências miseráveis.

Arthur Fleck, nesse sentido, encarna um papel crucial. Seus problemas psicológicos podem ser encontrados em todo lugar. Mesmo assim, muitas de suas falas podem ser ditas por nós em momentos de raiva. Somos todos invisíveis para o Deus Mercado. Continuamos todos insignificantes para o poder político. Somos apenas votos, e olhe lá. Por isso, muita gente pode idolatrar o Coringa.

Mas não se engane. O vilão continua vilão. Não deve ser, de forma alguma, endeusado – apesar do filme parecer querer isso. No fim das contas, “Coringa” nos diz como as pessoas podem enlouquecer de vez. Basta apenas um dia ruim.

Veja a crítica com spoilers:

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.