Camila Cabello e os juízes da internet • MAZE // MTV Brasil
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Camila Cabello e os juízes da internet

João Batista27307 views

Nunca fui muito fã das Fifth Harmony. Gosto das músicas, já fui a um show delas, mas não me considero um “harmonizer”, e se fosse pra ter uma integrante favorita, não seria Camila Cabello. Acho ela meio, sei lá, indiferente ali no grupo.

Nas primeiras horas dessa segunda-feira (19), a internet foi “supreendida” pela notícia de que Camila estava, oficialmente, deixando o grupo, que seguirá apenas com Lauren, Normani, Ally e Dinah. O vericidade do fato comprovou-se através de um comunicado nas redes sociais da girlband.

 

Obviamente, não demorou muito para o público reagir. Motivados pela aversão e pela sensação de “eu já sabia”, memes começaram a surgir – algo extremamente normal na era onde gifs se propagam com facilidade e engraçado até certo ponto.

Até certo ponto.

Após 4 anos e meio juntas, nós fomos informadas pelos representantes que Camila está deixando o Fifth Harmony. Nós desejamos a ela tudo de bom.

Vocês Harmonizers tem estado com nós desde o começo, vocês nos apoiaram, vocês nos deram forças e todo apoio, nós vamos continuar. Dito isso, nós estamos animadas em dizer que continuaremos como quarteto – Ally Brooke, Normani Kordei, Dinah Jane e Lauren Jauregui.

Nós estamos animadas para o nosso futuro e mal podemos esperar para ver o que o novo ano nos guarda.

Harmonizers, estamos juntos nessa. Nós te amamos com todo nosso coração.

Pra variar, mais uma vez a zoeira não teve limites, e declarações/piadas maldosas começaram a aparecer na mesma velocidade. “A menina está se achando a b*cetuda”, “vai flopar”, “já vai tarde” e “não faz falta” foi o starter pack disso tudo, chegando até a derivar outros tipos de comentários que nem precisam ser citados aqui. Mas a pergunta que fica é: o que nós temos a ver com isso?

A internet tem um histórico extenso de pessoas extremamente “preocupadas” com a vida do próximo, seja ele um anônimo ou uma celebridade. Não precisamos ir muito longe para exemplificar isso: Kim Kardashian. A socialite surgiu na mídia como amiga de Paris Hilton, e mais tarde veio a ser vítima de uma violação virtual que inevitável e infelizmente contribuiu para uma popularização maior de sua imagem. E do limão, Kim fez sua limonada: ganhou seu próprio reality show, lançou roupas, perfumes, cosméticos, apps, tornando-se uma personificação da mulher de negócios na era da internet. E mesmo com todo esse sucesso, ainda tem gente que insiste no conceito de Kimberly é rica e bem sucedida por ter sido “aquela puta da sextape”. Até porque ninguém faz esse tipo de coisa, não é mesmo? Que absurdo.

Quem também passou pelo tribunal online por algo bem mais sério foi Tati Quebra Barraco. A funkeira perdeu seu filho por conta de um conflito envolvendo uma operação policial, e ficou sabendo da notícia de forma fria e inesperada, enquanto fazia um show. Devido à ligação que o rapaz tinha com o tráfico, não faltaram motivos para que os juízes da internet fossem ativados e começassem a dar uma opinião (que ninguém pediu) cagadora de regra para o luto de Tatiana – uma mulher batalhadora que criou sozinha três filhos dentro do deplorável cenário social brasileiro. É uma série de vertentes que tornariam esse post ainda maior se fossem descritas.

Zayn Malik é uma outra referência para esse tipo de comportamento online, até mesmo bem mais compatível com o de Camila. Ele entrou pra competir no X-Factor para, assim como os outros, competir por uma oportunidade grande de ser um grande artista. SOLO. O que aconteceu depois, foi decidido pelos jurados. Quem garante que alguém ali não tenha ficado satisfeito com a decisão? Até porque, friamente falando, era ele com mais quatro “estranhos” disputando os holofotes e o reconhecimento. Quando saiu do One Direction alegando querer uma vida normal e anunciando pouco tempo depois a sua carreira solo, muitos (inclusive eu) julgaram sua conduta por motivos sem cabimento algum. E o mais irônico de tudo é que, no fim das contas, Mind Of Mine é um discão da porra.

Antes de mais nada, é ridículo desprezar o talento de Camila. Gostando ou não, ela teve méritos suficientes e uma contribuição generosa (dos fãs e dos empresários) para que o Fifth Harmony se tornasse o que é hoje. Forçada, metida, falsa ou qualquer outro adjetivo não são suficientes para julgar a decisão de alguém. Sensato ou não, certamente um motivo que só diz respeito a ELA e ninguém mais.

Camila, Zayn, Kim e Tatiana são apenas alguns dos exemplos recentes de que, infelizmente, nos apegamos ao vício virtual de querer decidir o que outras pessoas devem fazer, sentir e decidir. Mesmo se tratando de uma celebridade cuja vida é diariamente exposta, tal hábito não deixa de ser invasivo e desrespeitoso, além de que isso não vai mudar em nada.

Afinal de contas, é aquele ditado: quem gostou, bate palma; quem não gostou, paciência.

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.