Uma análise sobre "The Odyssey", a obra-prima de Florence + the Machine • MAZE // MTV Brasil
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Uma análise sobre “The Odyssey”, a obra-prima de Florence + the Machine

Marcos Wesley18 comments44328 views

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O símbolo acima foi a primeira coisa que vimos relacionada à nova era da banda Florence + the Machine. Os triângulos são símbolos alquímicos que representam o ar e a água, elementos que na astrologia e em outros campos esotéricos representam a mente (ar) e as emoções (água). Ele por si só mostrava o que estava por vir: a relação entre razão e coração, entre o caos e a ordem.

Há cerca de algumas semanas atrás, foi ao ar no site da banda um filme que uniu todos os clipes lançados ao decorrer dessa era, e é o simbolismo dele que exploraremos aqui.

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Nessa altura do campeonato sabemos que How Big, How Blue, How Beautiful foi um álbum extremamente pessoal, onde a Florence expôs seu lado humano e abriu sua alma para o mundo após o termino de um relacionamento conturbado.

O que vemos logo nos primeiros minutos de vídeo é uma Florence claramente apaixonada conversando com seu namorado no carro (usaremos a nomenclatura “namorado” no decorrer do texto, mas ela pode ser interpretada da maneira que for mais cabível: amado, amante, amor, mozão, etc). No diálogo, o namorado diz que ela estava falando enquanto dormia e que ela parecia triste. Ela o questiona o motivo dele não a ter acordado, e encerra o dialogo com a pergunta que ecoa durante o filme inteiro:

“Vamos supor que você passou por algo… Algo catastrófico, como uma tempestade ou um terremoto juntos, ou algo horrendo, isso nos aproximaria? Mas e se estivéssemos criando o desastre dentro de nós mesmos?”

“What Kind Of Man” começa com a Florence contando para o namorado o sonho que teve (partes dele aparecem no diálogo inicial), onde eles estão em uma tempestade juntos, e ela segue dizendo que conseguia sentir como se a tempestade estivesse em todo lugar, como se as coisas estivessem bem agora e como você nunca sabe quando tudo pode mudar. Tanto o diálogo inicial, quanto a fala dela explicando o sonho, mostram que talvez ela já soubesse que havia uma tempestade se formando em seu relacionamento, e dentro dela mesma.

A cena seguinte mostra o namorado de cabeça baixa na cama e a Florence se vestindo, enquanto na TV uma tempestade destrói a cidade. Coincidência? Vemos cortes dessa cena no decorrer do clipe, onde os dois estão fazendo sexo, como se ela buscasse uma conexão física com ele, já que os primeiros sinais de que o sentimental estava abalado surgiam.

O namorado sai do quarto, enquanto ela permanece lá, a TV agora mostrando imagens de um mar revolto – talvez um reflexo da que a própria Florence sentia.

Enquanto isso, a letra da música é bem direta perguntando: Que tipo de homem ama assim?

A cena chave é quando o acidente de carro acontece – um momento traumático que impulsionou o inicio de sua Odisseia pessoal. A partir daí o clipe mostra Florence dançando/lutando com diversos homens dividida entre desejo e raiva, tentando fugir, mas se deixando levar pela sedução e força deles. As cenas de dança/luta são intercaladas por ela sendo levada até o que parece ser um porão – o núcleo de seu inferno pessoal – onde ela fica no centro de um circulo de homens,  ela primeiro se ajoelha e coloca as mãos para o alto totalmente indefesa, depois aparece gritando para eles e tentando escapar.

Na última cena, Florence sai rastejando do local do acidente sozinha, o namorado é deixado para trás – representando que ela entendeu que essa é uma jornada só dela, e que ela está disposta a trilhar o caminho, mesmo sem forças.

Após sair do carro, o filme segue mostrando Florence caminhando calmamente pelas ruas da cidade enquanto canta a música que dá nome ao álbum. Dessa vez acapella, dando ênfase no que  está sendo cantado.

Intercalando com a caminhada pela rua, temos uma cena onde três mulheres vestidas de preto “batizam” Florence no mar. Há diversas teorias sobre quem seriam essas mulheres, mas aqui vamos explorar um lado diferente – que pode ser confirmado mais tarde: a de que essas mulheres representam a Deusa Tríplice.

A imagem da Deusa Tríplice vem de tempos pré-cristãos e pode ser encontrada em diversas culturas pagãs pelo mundo, onde a Deusa era o centro de cultos e religiões diversas, sendo representada muitas vezes pelo próprio planeta Terra e pela natureza. Em uma visão mais moderna com vertentes no neopaganismo, a Deusa tem três aspectos, que são:

  • Donzela – representando a inocência e a busca pelo conhecimento.
  • Mãe – representando o ápice do poder feminino, proteção maternal, etc.
  • Anciã – representando sabedoria, renovação, etc.

Claro que as representações acima são apenas um resumo do que cada uma das faces da Deusa representa, seu simbolismo real é muito mais complexo e vai além.

Voltando à cena do batismo, vemos a Florence de branco (cor associada a face Donzela) sendo carregada por três mulheres de preto (cor associada a face Anciã). As conclusões são obvias.

No clipe anterior vimos que Florence, mesmo sem forças, entende que precisa seguir sua jornada sozinha, então agora ela toma o primeiro passo rumo à sua liberdade purificando e limpando seu corpo – o batismo nada mais é que uma reafirmação de que ela quer seguir em frente e deixar as coisas que a “poluíam” para trás.

“St. Jude” é um dos vídeos mais complexos e cheios de simbolismos do filme. Começa com a Outra Florence (uma parte da própria Florence com a qual ela está em constante luta) sem camiseta saudando a natureza, e logo em seguida mostra um MAZE labirinto em espiral – forma que pode representar a tempestade/furação visto em “What Kind of Man”.

O labirinto é um símbolo antigo que, entre outras coisas, representa a busca da totalidade. Ele combina a imagem do círculo e da espiral em um caminho sinuoso e difícil, mas proposital – quem entra nesse caminho, entra por vontade própria, em busca de respostas, em busca do centro e o que quer que esteja lá. Ele representa uma jornada para o nosso próprio centro e de volta para o mundo.

Após aceitar sua jornada e ser purificada, Florence está agora pela primeira vez adentrando em seu inferno pessoal por sua própria vontade. E logo que ela passa pelo símbolo do labirinto, a vimos nos braços de um homem em baixo de uma chuva que cai dentro de uma casa – o que nos remete às palavras dela em “What Kind of Man”: “E se estivermos criando o desastre dentro de nós mesmos?”

Enquanto isso a música segue:

“São Judas, o santo padroeiro das causas perdidas. Nós estávamos perdidos antes dela começar (a tempestade). São Judas, nós deitamos na cama enquanto ela (a tempestade) se virava em torno de nós. Talvez eu sempre tenha me sentido mais confortável no caos”

Quando Florence sai da casa, deixando a chuva para trás, ela caminha por uma rua enquanto canta sobre o relacionamento:

“Eu estava em uma ilha e você estava lá também – a ilha representa os dois isolados do mundo dentro do relacionamento -, mas de alguma forma através da tempestade eu não consegui te alcançar – Florence falando sobre como não conseguia alcançar o namorado, mesmo os dois estando no mesmo local físico. São Judas, de alguma forma ela (a tempestade) sabia, e ela veio para dar sua benção enquanto causava devastação – a tempestade foi o que destruiu o lugar-comum e impulsionou Florence a buscar respostas”.

Vemos a Outra Florence ajoelhada do lado de fora de uma igreja, como se essa parte da Florence se achasse indigna de adentrar o local sagrado, enquanto homens carregam pedras enormes para fora de lá – podendo simbolizar o peso de seus próprios pecados/culpas.

Florence é carregada pelo homem que estava com ela na chuva, mas desce de seus braços, ainda se confortando em seu corpo por um momento, e fazendo um gesto com a mão como se estivesse se alimentando de algo que ele pudesse oferecer.

Continuando a caminhada, ela encontra um homem que pergunta o motivo dela estar viajando sozinha, e se ela está perdida, o que ela responde cantando:

“Eu estou aprendendo, por isso estou indo embora. Mesmo que eu esteja lamentando, estou tentando encontrar um sentido. Deixe que a perda o revele.”

Por um breve instante Florence vê a si mesma sendo carregada, mas agora de outro ângulo, começando a entender toda a situação.

A última cena que vemos nessa música mostra Florence se ajoelhando com as mãos para cima em um campo, enquanto olha para um bando de pássaros que formam um circulo no céu – a Natureza/Deusa, confirmando que a jornada será válida no final; o circulo também é um símbolo comumente associado à proteção e ao equilíbrio.

Agora vemos a Florence no carro, em uma continuação da cena do primeiro diálogo com o namorado, evidentemente desgostosa com algo sai na chuva, a cena corta para ela entrando na igreja que a parte “indigna” dela não entrou, e logo em seguida ela está ajoelhada no meio da rua, enquanto a chuva continua caindo.

Em “Ship to Wreck”, Florence + the Machine mostra que encarar os próprios demônios pode ser um processo muito (auto)destrutivo e essa parte da Odisseia mostra isso de forma inigualável.

O vídeo, que foi gravado na casa da própria Florence, mostra dois lados os dois lados dela em uma luta insana. Um deles calmo, e o outro (a Outra Florence) completamente destrutivo. A casa está um completo caos – objetos quebrados e bagunça por todos os cantos – um reflexo da confusão mental em que a Florence se encontra.

Logo no inicio do vídeo ela acorda no chão e vai até a sua cama, onde se senta, confusa. Podemos ver o namorado dormindo tranquilamente. Florence vai até o banheiro, onde se olha no espelho e chacoalha a cabeça como para tentar se livrar do que acaba de ver.

Então uma luta começa na cama com o namorado, como se ela, através da luta, estivesse querendo provocar alguma sensação em si mesma. Ela sai do quarto e é seguida por ele até o closet. Ela se aproxima dele fazendo o mesmo gesto de “se alimentar” visto no vídeo anterior, porém logo o empurra, pois já entendeu que ele não tem nada que possa completá-la.

Na cena seguinte, Florence se esconde em meio a suas roupas, enquanto a Outra Florence ataca o namorado com elas. Em seguida a iluminação muda para vermelho enquanto a Florence assiste seu duplo fazendo movimentos sexuais em cima do namorado, que está sentado em uma cadeira sem reação. Florence empurra a Outra e tenta beijar o namorado, mas é interrompida por seu duplo que faz gestos como se questionando o motivo dela estar fazendo isso. A cena na iluminação vermelha segue com as duas Florences puxando e empurrando o namorado, mostrando a clara confusão mental em que se encontra, onde sabe que deve deixar a situação para trás, mas ao mesmo tempo ainda é dependente, e é esse conflito que causa toda a (auto)destruição mostrada.

Logo vemos como essa (auto)destruição não afetou somente a Florence, mas além dela, sua família e amigos.

Enquanto a Outra Florence se debate em cima da mesa de jantar, onde a família inteira está reunida, a Florence aparece no jardim, aparentemente bem mais calma (novamente buscando seu refugio e paz na Natureza/Deusa). O namorado se encaminha para o jardim, mas antes que ele entre, ela vai até ele, impedindo-o de adentrar seu local sagrado. Eles se abraçam com os braços estendidos, como se ambos quisessem fugir, mas sendo impedidos pelos corpos um do outro.

Daí vamos de volta para dentro da casa. E agora, depois de ter as forças renovadas no jardim, Florence encara a si mesma em uma luta frenética até onde o vídeo começou, novamente com ela no chão.

“Queen Of Peace” começa com o mar e uma Florence do passado na beira de um precipício chorando, abraçando a terra (mais uma vez buscando conforto na Natureza/Deusa) e esticando o braço, em um gesto como se para alcançar a liberdade que tanto deseja, porém está presa na ilha, sem saída.

A cena corta para a Florence do presente fazendo o mesmo gesto em direção de seu namorado, mostrando que a visão de liberdade que ela tem agora, não é mais a mesma, pois é o seu namorado que a personifica agora e não mais o mar. A cena segue até Florence encontrar o seu eu criança, e a partir daí seguimos suas memórias.

Resumidamente o clipe mostra como o amor surgiu entre Florence e seu namorado. Em meio a brigas entre suas famílias que não se gostam, Florence acaba conseguindo receber a benção de seu pai para a união do casal. O vídeo inteiro mostra que desde o inicio, Florence levou a falta de apoio de sua família como um sinal de que o relacionamento não daria certo.

Uma das cenas mais marcantes do vídeo é quando a família de Florence se reúne para posar para uma foto. Reparem que ninguém está sorrindo e que Florence e seu eu criança seguram um buquê de Narcisos – uma flor que representa novos começos, mas também o amor não correspondido. Algumas lendas mostram essa flor ajudando Narciso (da mitologia grega) a controlar suas obsessões. Mais uma vez a natureza presente como o ponto de paz em que Florence se apoia.

O vídeo termina com as crianças representadas por Florence e seu namorado se abraçando no penhasco e fugindo de seus familiares – mostrando que apesar de tudo ficaram juntos no final.

Enquanto a musica termina para dar lugar à próxima, temos um monologo do namorado:

“Se entregar a outro corpo, isso é tudo que você quer na verdade: Estar fora de si e ser consumida pelo outro, nadar dentro da pele do seu amado, não ter que respirar, não ter que pensar. Mas você não pode viver de amor, e água salgada não é para se beber”.

“Long & Lost” começa com Florence se afastando de seu namorado enquanto ele tenta ir atrás dela, mas é mantido no lugar por seus amigos/parentes. O vídeo segue Florence em um porto, sendo confortada por sua família enquanto canta: “Sem o seu amor eu ficarei perdida. Você sente minha falta?”.

Florence afasta sua família repetidamente durante o decorrer da música, em momentos aceitando o conforto deles, só para afastá-los depois, percebendo que precisa passar por aquilo sozinha. Mas nos momentos em que ela parece ficar mais fora de si, podemos ver que sua família toda a ampara.

Já no final do vídeo percebemos que ela está em um barco, e mais uma vez ela ajoelha estendendo a mão para o mar – tentando alcançar sua liberdade.

O namorado segue com a conclusão de seu monologo:

“Estamos morrendo de sede, então bebemos um ao outro. O mar ainda é nossa mãe violenta, o sangue por aqui escorre como água. Cada onda, um cordeiro pro abatedouro, e como crianças que ela não consegue educar nós quebramos, e quebramos, e quebramos e quebramos nós mesmos na praia.”

“Mother” trás novamente Florence cantando sem instrumentos, um recurso que como em HBHBHB nos faz prestar mais atenção no que está sendo cantado. Ela está em um corredor na rua, cercada por grades – um reflexo de sua prisão mental – e a cena corta para ela  conversando com um homem e se questionando se deve ficar onde está ou não.

Lembra da Deusa sempre presente nos pequenos detalhes durante os vídeos anteriores? Aqui Florence canta diretamente para ela, pedindo forças.

“Oh Senhor, você não vai me deixar de joelhos. Porque eu pertenço ao chão agora e ele pertence a mim.”

Aqui Florence, após ter apelado ajuda para Deus (como visto em St. Jude), finalmente percebe que está com os pés no chão – o chão pertence à ela, ela é dona e está no controle. Podemos interpretar esse trecho também como um abandono definitivo às coisas em que Florence vinha acreditando e se apoiando e um apego definitivo à Terra/Deusa.

“Como eu anseio pelo velho/O sol continua queimando profundamente/Cada pedra nessa cidade me faz lembrar/Você pode me proteger do que eu quero?/O amor que eu permiti entrar me deixou tão perdida”

Nas três primeiras linhas desse trecho ela fala sobre memórias do relacionamento e como isso continua a afetando. E nos dois últimos versos vem o pedido de proteção e a aceitação.

“Mãe, faça de mim/Faça de mim uma árvore enorme/Para que eu possa lançar minhas folhas/E deixá-las soprar através de mim/Mãe, faça de mim/Faça de mim uma grande nuvem cinza/Para que eu possa chover em você/As coisas que eu não posso dizer em voz alta”

Aqui, Florence pede diretamente à Deusa para que Ela a transforme. Percebam que todos os pedidos de transformação ao decorrer da música são referentes a natureza – de onde Florence tirou suas forças durante os outros vídeos.

A música segue com a Florence basicamente dizendo que a vida de festas e de pedidos vazios não tem sentido, e mais uma vez vem o apelo à Deusa:

“Mãe, faça de mim/Faça de mim uma ave de rapina/Para que eu possa subir além disso, e deixar tudo se esvair/Mãe, faça de mim/Faça de mim uma música tão doce/Que o céu trema, caído aos nossos pés”

E é exatamente depois dessa música que Florence vai enfrentar seus demônios internos cara a cara.

“Delilah” começa com Florence deitada enquanto um homem velho fala:

“Você acha que você perdeu a sua fé, mas você não perdeu. Você só colocou sua fé no lugar errado, e você não consegue encontrá-la onde ela está agora, no fundo da sua alma. A maneira de fazer isso é pelo simples processo de amar. Ame a si mesma. Perdoe-se. Você não pode amar e perdoar outras pessoas se antes de tudo você não amar e perdoar a si mesma. Você tem que entender que pessoas são falhas. Pessoas cometem erros e precisam ser perdoadas por esses erros para que elas possam continuar em suas jornadas por uma vida melhor e pela bondade. Então ame a si mesma e então outras pessoas. Por favor, se perdoe. Vá em uma jornada de encontro ao amor e perdão.”

Enquanto o homem fala, Florence e seu duplo andam por corredores até que a cena muda par a Florence em um quarto cortando o cabelo de seu namorado – remetendo à história bíblica de Sansão e Dalila (Delilah), onde assim como a remoção do cabelo de Sansão dele tira toda sua força, Florence finalmente se livra da influencia de seu namorado e da força que ele exercia sobre ela.

A cena intercala com Florence na cama com várias mulheres. Ela já disse em entrevista que durante seu período de depressão e confusão, buscou forças em mulheres inspiradoras e fortes e que foram essas mulheres que a tiraram da situação em que se encontrava – a cena na cama pode representar isso.

O namorado em um momento cobre os olhos dela, dando enfase ao que é cantado “I’m going blind / estou ficando cega”. Mas ela continua cortando seu cabelo, diminuindo a força que ele tem sobre ela.

Uma outra cena mostra Florence fazendo movimentos bruscos como se estivesse rezando, enquanto canta “Eu estou chamando por minha Mãe (Deusa?) enquanto derrubo os pilares”, derrubar os pilares é destruir o centro do que a causava mal até agora.

O demônio sentado em seu peito enquanto ela dorme é não só uma referencia à paralisia do sono, mas também à impotência que ela sentia diante de tudo que estava vivendo.

“Muito rápida para a liberdade/As vezes tudo desmorona/Essas correntes nunca saem de mim/Eu continuo as arrastando por ai”.

Florence reconhece que por mais que ela corra, algumas coisas não podem mudar, pois fazem parte dela. O processo de amar a si própria envolver amar não só a parte que a faz bem, mas todas as partes de si mesma.

Quando Florence sai do quarto, a dança/luta com seu namorado recomeça. Mas apesar disso, ela demonstra estar muito mais forte e em total controle da situação. No momento em que parece que ela vai se deixar levar, uma amiga aparece e a tira do meio da confusão, fazendo com que Florence recupere o foco – uma outra cena mostra essa mesma amiga repetindo os gestos de “reza” de Florence, o que pode nos levar a crer que ela tenha passado por algo parecido ao que Florence está passando, e por isso tem a experiencia necessária para indicar o caminho certo e ser a rocha da ruiva.

Enquanto isso, Florence e a Outra Florence continuam caminhando pelo corredor, até que a Outra Florenc encontra o namorado e começa a dança/luta novamente. Porém, dessa vez Florence observa tudo de fora, finalmente enxergando o quanto aquilo era destrutivo. O cabelo da Outra Florence é removido (tirando sua força) e podemos ver seus lábios formando as palavras “Não! Eu não sou você!” para Florence, que fica espantada e parece não querer se desfazer dessa parte de si mesma, mas a Outra Florence faz gestos para que ela se afaste.

As duas cenas seguintes mostram um homem segurando Florence acima da água da piscina, um reflexo de sua antiga dependência, mas agora ela está acima da água e não mais perdida no fundo. E logo após vemos a Outra Florence morta, boiando na água.

Florence entra no quarto e troca de roupa enquanto dança, deixando seus antigos hábitos para trás e comemorando sua recém adquirida liberdade.

No final vemos ela fazendo o mesmo gesto feito em clipes anteriores, que antes representava o desejo por liberdade, mas ela estava parada e não conseguia alcançar esse desejo; em Delilah o mesmo gesto é repetido, dessa vez em movimento – finalmente livre.

“Third Eye” já começa com o labirinto – que representava a jornada de Florence para dentro de si mesma, e a tempestade que a seguia – em chamas, uma clara representação de que o ciclo foi encerrado.

Os homens continuam presentes durante o vídeo, mas agora podemos ver uma Florence totalmente em controle andando na frente deles sem se deixar afetar.

No decorrer da música ela entra em um elevador e desce novamente ao seu limbo, onde os homens estão agora andando em fila, cada um carregando uma pedra – seus próprios problemas/pecados.

Os homens dançam a seu redor, e por um instante um deles tenta a abraçar, mas ela o empurra e repete os gestos de “reza” que vimos em Delilah. Durante essa cena é posivel ver três mulheres (Deusa) paradas ao fundo, como se estivessem ali prontas para agir caso Florence precise da ajuda delas. A cena muda de iluminação e vemos Florence vestida de branco, agora sozinha na sala, dançando.

A própria Florence disse na entrevista que foi ao ar logo após o lançamento do filme, que cada vídeo foi um processo de auto conhecimento e um exorcismo, e que foi através da dança que ela foi capaz de expressar sentimentos que ela não conseguia dizer em palavras. Todos os gestos que vemos ao decorrer do filme mostram isso.

Na sequencia, Rob Ackroyd entra tocando violão. Florence se apoia nele para ir até o palco, onde sua jornada finalmente se completa. O palco, o local onde ela se sente completa e totalmente livre, enquanto canta: “Eu sou a mesma/Eu sou a mesma/Eu estou tentando mudar”

E ecoando as palavras da própria Florence em entrevista:

O filme foi muito sobre tentar mudar. Sobre não cometer os mesmos erros. Então enquanto eu cantava aquilo no final, realmente significou algo, eu pensava esperançosa que as coisas mudassem. E talvez elas realmente tenham mudado.


Relacionamentos, sejam eles de qual natureza forem, são uma das coisas que mais nos ensinam e nos fazem evoluir. Se livrar de algo que nos mantém satisfeitos, por um futuro incerto também tráz um certo nível de aprendizado. Mergulhar nas profundezas de sua mente, reconhecer que seus demônios são e fazem parte de você, já não é fácil normalmente, agora fazer isso publicamente, expôr suas fraquezas da maneira que Florence fez, é inimaginável. Torcemos para que essa busca continue, e seguimos ansiosos para as surpresas que os próximos trabalhos da banda nos trarão.

É importante ressaltar que símbolos são formados pela bagagem de cada individuo. Há inúmeras outras referências escondidas, e até mesmo expostas no filme, como por exemplo a comparação do inferno pessoal da Florence com o Inferno de Dante – o que mostramos no decorrer desse texto foi um caminho que poderá levar à outras descobertas. Sintam-se livres para compartilhar as suas com a gente!

Obs.: O filme foi disponibilizado na íntegra no canal VEVO da banda, o que significa que podemos apreciar sem moderação. Aproveitem!

Marcos Wesley

Nasci pra provar que também existe bruxo das trevas na Grifinória.

  • Amei a análise! ??

    • João Batista

      Obrigado pela visita, Gabriel! 🙂

  • sia preta

    Eu tô chocada com essa análise. A forma que você escreveu me deixou toda arrepiada. Já reli umas 10 vezes e percebi que esse álbum conta toda a história da minha vida e o momento que estou passando, e que parece loucura, mas ele que está me ajudando a superar. Obrigada por essa análise, realmente mudou minha vida.

    • João Batista

      Amamos receber feedbacks assim.

      Obrigado pela visita, e pode acreditar: não acho que seja loucura da sua parte. Esse disco é realmente purificador!

  • Mayara Mendes

    Análise sensível e mto bem escrita. Parabéns!

    • João Batista

      Obrigado pela visita, Mayara! 🙂

  • Gibran Yasser

    sem palavras para um análise tão rica! Me identifiquei muito com o álbum e principalmente com o filme, as mesmas impressões que tive são as descritas nesse artigo. Quantas reflexões!

    • João Batista

      Realmente, esse disco é um soco daqueles, né?

      Obrigado pela visita, Gibran! :

  • Jamerson

    No álbum anterior já havia uma correlação interessante entre o “ser homem e ser monstro” que vai se estudando nesse novo álbum! Acho incrível que ela não tenha aproveitado o Ceremonials pra fazer algo perto do que fez com HBHBHB, mas fico extremamente feliz com The Odyssey e ainda mais feliz com essa review. Faz algum tempo que venho tentando me buscar, percebi que faço parte dos signos de água, e estou dentro do que mais sente e luta contra os próprios monstros que é Câncer. Nesse álbum encontrei tudo aquilo o que eu já vinha conhecendo sobre mim, mas encontrei principalmente motivação pra continuar me entendendo e buscando o equilíbrio do meu ser. Parabéns pela linda review e pelo esforço sobre o trabalho. Abraços.

  • Mario Felipe Maciel

    Adorei a análise! Ainda não havia assistido a obra toda, mas quis ler antes sobre para poder interpretar melhor. Tem um significado muito mais complexo do que parece. A partir de agora, vou ouvir as músicas com outros ouvidos. Também reflete um momento parecido da minha vida pelo qual estou passando. Gratidão por essa análise!

  • Leonardo Lima

    Muito bom. Parabéns pelo trabalho.

  • Jaaunh Romero

    Realmente relacionamentos nos fazem aprender mais sobre nós mesmos e nos deixam mais fortes pra lutar, passo pelo mesmo agora, e posso dizer que as músicas dela, não só do álbum HBHBHB, mas Ceremonials e Lungs, são completamente esclarecedores, e eu acabo de encontrar a liberdade que tanto queria. Até vou fazer uma tatuagem com o símbolo desse álbum, o símbolo do ar e da água pra que eu possa aprender a manter o equilíbrio entre caos e ordem, coração e razão. Já escutava Florence algumas vezes no passado, mas hoje eu posso dizer que ela se tornou uma das minhas artistas preferidas!

  • Wesley Cabral

    Belíssima analise, belo trabalho.

  • Gabriel Coelho

    que hino essa analise!!! Amei!

  • Raonny Araújo

    Eu AMEI essa análise. Eu lembro bem que antes de ouvir o álbum eu estava resistente e ao mesmo tempo ansioso. Resistente porque ainda estava muito ligado ao Ceremonials e ansioso porque estava com medo do HBHBHB não seguir a perfeição da Florence; engano meu. Agora, juntando a análise e as músicas, eu acredito que esse álbum foi o que mais me cativou. E foi incrível como ajudou a me redescobrir constantemente, me amar e me aceitar do jeito que sou… as letras são incríveis e a Florence não decepcionou em nenhum momento sequer. A frase “too fast for freedom” me representa tanto!!!! <3 <3 <3

  • Nicolas Vale

    Parabéns e obrigado por compartilhar esse trabalho incrível com sua analise sensacional!!