ANÁLISE | Arthur Fleck, de "Coringa", estimula a violência ou é exagero? • MAZE // MTV Brasil
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ANÁLISE | Arthur Fleck, de “Coringa”, estimula a violência ou é exagero?

Luiz Henrique Oliveira1266 views
ANÁLISE | Coringa realmente estimula a violência ou é apenas um exagero?

Arthur Fleck, agora conhecido como Coringa, parece um personagem simples, com questões que são fáceis de responder. No entanto, nem sempre as perguntas mais simples possuem respostas fáceis. Muitas vezes, esse “simples” se mostra cheio de nuances e camadas, que podem conter – ou não – diversos problemas de difícil resolução.

Vejamos o caso de “Coringa”, filme de Todd Philips que estreou nesta semana nos cinemas do mundo todo. É um dos longas mais aguardados do ano, bem como também um dos mais celebrados pela crítica internacional. A forma como o filme desenvolve o personagem pelos caminhos de sua mente tortuosa é realmente fascinante. Dessa forma, conseguimos embarcar em uma viagem pela sociopatia que caracteriza o vilão das histórias do Batman.

Tudo isso só foi possível por conta da atuação irrepreensível de Joaquin Phoenix. O ator, especialista em interpretar personagens problemáticos, tem aqui o trabalho de sua vida. Será uma surpresa se ele não aparecer nas indicações ao Oscar 2020 – mais ainda se ele não vencer. Portanto, nota-se que “Coringa” tem por trás de si tudo o que um filme de sucesso poderia almejar. Então, por que ele está criando tantos questionamentos?

 

Medo (mais ou menos) justificado

Acontece que muitos países estão com medo do que “Coringa” pode suscitar na audiência. Todos ainda se lembram do atirador, nos Estados Unidos, que entrou na sessão de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, atingindo vários espectadores. Há um temor de que a história de Arthur Fleck, que depois se torna o temido vilão, seja o estopim para novos maníacos invadirem lugares públicos ou sessões de cinema com arma em punho. Isso é realmente possível? Não e sim.

Pelo lado do “não” é fácil argumentar: é apenas um filme, que emula a vida real, mas exagera nos tons de propósito. Pelo lado do “sim”, é um fato consumado de que “Coringa” dá uma grande ênfase aos “excluídos pela sociedade” e prega a anarquia violenta como forma de vingança.

Basicamente, no decorrer da história, quando Arthur se torna Coringa ele passa a encarnar o símbolo do homem de mente tortuosa que é rejeitado por todos, praticamente invisível para o resto das pessoas, que encontra a sua voz ao deixar de tentar seguir os rumos ditados pela civilidade. A partir de então, ele passa a ser o senhor de sua própria interpretação de justiça. Ou, em outras palavras: ao invés de ser criado depois de um acidente com um tanque químico – como é em seu cânone nas HQs – ele é fruto de uma sociedade que violenta psicologicamente quem não segue suas regras.

 

Seria Arthur Fleck um “incel”?

ANÁLISE | Coringa realmente estimula a violência ou é apenas um exagero?O filme tem uma trama interessante, ao mesmo tempo em que também é perturbadora. Trazer o personagem para a vida real é uma sacada inteligente, que aproxima as pessoas de seu drama pessoal. Arthur Fleck é um homem machucado, bem como também maltratado constantemente pela vida. Tem um trabalho ruim – apesar de gostar dele. Não tem uma namorada. Vive com a mãe em uma relação de dependência mútua. Sente que a sociedade não o enxerga. Como cinema, é um personagem bem desenvolvido. Entretanto, a mensagem que ele passa causa certa consternação.

Quando ele abraça a sua natureza violenta, ele elege a sociedade como um todo (e não apenas uma parte dela) como o grande vilão. Quantas outras pessoas não pensam assim? O grupo com mais chances de se ver retratado na história de “Coringa” são os incels (sigla para “involuntary celibatary”, ou “celibatas involuntários”, em português).

Incels são homens que não conseguem estabelecer ligação alguma com mulheres em termos íntimos e com a sociedade em termos gerais. Eles se tornam agressivos e violentos por considerarem não ser pessoas compreendidas pelos seus pares, e descontam essa raiva no sexo oposto e/ou em grupos, geralmente minorias. Arthur Fleck, mesmo sem querer, pode incentivar essas pessoas a agir de forma desproporcional contra aqueles que consideram não entender suas vidas – discurso usado pelo personagem no decorrer do longa.

Claro que muita gente vai achar que comparar o Coringa com os incels é forçar a barra. E de certa forma é mesmo: pode soar como exagero. No entanto, todo cuidado é pouco: com a facilidade de organização de grupos por conta das redes sociais como o WhatsApp, muita gente que se enxerga na história mostrada no filme pode querer imitar as ações que ele toma em seu clímax. É justamente onde mora o maior perigo.

 

Todo cuidado é pouco

Arthur Fleck encara o espelho - e a si mesmo - em "Coringa", de Todd Philips - Foto: Reprodução/Warner
Arthur Fleck encara o espelho – e a si mesmo – em “Coringa”, de Todd Philips – Foto: Reprodução/Warner

Vários cinemas americanos estão tomando cuidados redobrados para exibir “Coringa”. É um cuidado que deveria ter sido feito aqui no Brasil. Sabemos da escalada de polarização política que vivemos, e há muitas pessoas dispostas a encarnar a persona de Arthur Fleck em nome de uma suposta “salvação”, que viria pela anarquia, pelo caos. É bom prevenir, já que sempre há quem esteja disposto a isso.

No entanto, a conta não pode entrar para a produção do filme. “Coringa” é um longa excelente, de qualidade inquestionável, e que traz uma das melhores performances de um ator em anos. A intenção do filme nunca foi fazer apologia de nada. Entretanto, a mensagem que o filme carrega, mesmo que sem querer, pode fazer com que pessoas irresponsáveis, sentindo-se inspiradas pelas atitudes de Fleck, queiram fazer o mesmo na vida real. O problema está nessas pessoas, e não no fato do filme ter sido produzido.

Infelizmente, por conta desse tipo de situação, todo cuidado é pouco. É preciso aguardar algum tempo após o lançamento do filme para saber, com mais exatidão, como ele será absorvido pelo público. Se “Coringa” for considerado uma obra cinematográfica que mostra como um personagem psicologicamente quebrado encontra a sua “verdade” por meio da violência, tudo bem se ficar por isso mesmo. No entanto, se daqui a algum tempo encontrarmos diversas pessoas usando a máscara do Coringa como se fosse a de Guy Fawkes, então saberemos que a mensagem foi interpretada de forma completamente errada.

Como se vê, nem sempre os problemas simples tem resoluções fáceis.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.