"A Gente Se Vê Ontem" Explicado: o que o final do filme quis dizer? • MAZE // MTV Brasil
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“A Gente Se Vê Ontem” Explicado: o que o final do filme quis dizer?

Luiz Henrique Oliveira6905 views
A Gente Se Vê Ontem Explicado: o que o final do filme quis dizer?

Aparentemente muita gente não entendeu a mensagem de A Gente Se Vê Ontem. Por conta disso, a gente vai explicar o final para que não haja nenhuma dúvida a respeito. Com isso, quem não entendeu o final aberto do filme pode pensar melhor sobre o assunto.

Caso não queira ler, mas ver e ouvir o conteúdo, clique no vídeo abaixo:

Se você nem sabe do que estamos falando, aqui vai um resumo rapidinho. O filme acompanha a história de dois adolescentes prodígios que descobrem uma maneira de viajar no tempo. C. J, que é papel de Eden Duncan-Smith e Sebastian, papel de Danté Crichlow, são os descobridores dessa tecnologia.

Quando eles conseguem regular a máquina, descobrem que só conseguem abrir uma espécie de portal de dez minutos no tempo. Tudo anda normalmente até que o irmão de C. J, Calvin, é morto a tiros por um policial branco. Indignada com isso, CJ convence Sebastian a usarem juntos a máquina para tentar impedir que isso aconteça.

 

A partir daqui tem spoilers pesados

A Gente Se Vê Ontem Explicado: o que o final do filme quis dizer?

Se você não viu o filme, pare agora. Se continuar, é por sua conta e risco, tá?

Muito bem. No decorrer do filme, CJ e Sebastian tentam salvar Calvin, mas ele sempre acaba morrendo. Na última vez que isso acontece, Sebastian chega a conclusão de que é hora de parar. Ele entende que não se pode mudar o destino. Nas entrelinhas, o recado é que você não pode lutar contra o sistema.

Ele decide desistir, mas C. J, a irmã do Calvin, não desistiu. Como ela já fez a viagem várias vezes ela entendeu como as coisas funcionam, e para ela ainda é possível salvar o irmão. Então, ela resolve tentar mais uma vez. Sebastian, dessa vez, não vai com ela. Quando o filme termina, ela está fazendo uma nova viagem do tempo.

O final, se você ainda não notou, é aberto de propósito. Essa cena final não é para ser necessariamente um final, mas sim para passar uma mensagem. E sendo uma produção de Spike Lee, a mensagem é obviamente política. Ela quer dizer que, sendo negros, é preciso lutar contra o sistema o tempo inteiro. Mas não só eles: todas as minorias precisam lutar contra tudo e todos, sem nunca desistir.

 

Qual é a mensagem, então?

A mensagem que o filme passa é para que essas minorias, sejam elas quais sejam, não parem de tentar lutar contra um sistema opressor, sem se abalar com os fracassos que podem encontrar em todas as suas tentativas de consertar as coisas.

Sutilmente o filme diz que é preciso manter esse ciclo de enfrentamento o tempo todo, até que o mundo tenha mudado para melhor. Antes disso, não se pode desistir. CJ pode fracassar em todas as suas tentativas de salvar o irmão, como o filme indica, já que não dá para mudar o destino. Mas pelo menos ela tentou.

É um recado claro para que nenhum de nós desista da luta necessária, que é para mudar o mundo de forma que ele não tenha mais preconceitos de qualquer tipo.

 

A Gente Se Vê Ontem e a insistência pela coisa certa

A Gente Se Vê Ontem Explicado: o que o final do filme quis dizer?A viagem no tempo, nesse caso, é apenas uma metáfora para trazer uma mensagem sutil. É normal que muitas pessoas não tenham entendido. Mas quem presta atenção, e principalmente se reconhece nessa história, percebe que o roteiro fala sobre os preconceitos que os negros sofrem diariamente, e também sobre a questão da violência policial contra minorias, principalmente os negros.

A busca de C. J, portanto, é para corrigir o passado, e consequentemente fazer para fazer as coisas certas. Ela não se importa com quantas vezes ela pode fracassar. Isso também parece soa como uma metáfora sobre para as pessoas que ousam lutar contra o sistema. Em cada viagem ao passado, ela tenta resolver o problema sem influenciar as mentes dos policiais que abordam seu irmão. Isso também faz referência a todas as tentativas de ativistas que tentam mudar um sistema de justiça profundamente preconceituoso em todos os lugares do mundo.

 

Reflexos na atualidade

Basta olhar pro Brasil de hoje, 2019. Tem governador se orgulhando em subir em helicóptero para atirar em comunidades carentes sem se preocupar em quem essas balas estão atingindo. A violência policial tem aumentado consideravelmente nos últimos meses. Não vamos nem entrar no mérito da política nacional, mas isso são fatos, e não dá pra fugir dos fatos. Os mais atingidos são os pobres, negros, gays, marginalizados. O filme, então, é uma metáfora para nunca desistir de mudar o status quo. O final deixa isso muito claro.

O fim do filme tem a intenção de fazer com que com que o espectador questione o sistema falho e o racismo institucional contra os negros e minorias em qualquer lugar do mundo. Mas é Netflix, né? Pode ser que achem um jeito.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.